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  • Júlio Zacarchenco

Ser médium e ser espírita

Os médiuns são sempre espíritas? A mediunidade só existe no Espiritismo? Descubra...

Quando se fala em médiuns ou mediunidade, muita gente logo pensa em Espiritismo. Mas será que todos os médiuns são espíritas e todas as mediunidades estão vinculadas ao Espiritismo?

Allan Kardec, ao lançar a primeira obra básica da Doutrina Espírita, “O Livro dos Espíritos”, em 1857, deixou bem clara a distinção entre espiritualismo e Espiritismo, expressando-se nos seguintes termos: “Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.”1


Isso significa que o fato de alguém ser médium não implica ser ele espírita, necessariamente. A mediunidade é a capacidade que nos permite perceber a presença e a influência dos Espíritos, pondo-nos em comunicação com a dimensão espiritual. Como consta da obra “O Livro dos Médiuns” (item 159), é uma faculdade inerente a todo ser humano, que se apresenta em intensidades e variedades infinitas. Os médiuns sempre existiram na Humanidade, desde os seus primórdios. Eles estão presentes em todas as classes sociais, etnias, culturas, religiões, e até mesmo entres os ateus, uma vez que é uma faculdade radicada no organismo.


Kardec esclarece que “muitos dos que acreditam nos fatos das manifestações (mediúnicas) não lhes apreendem as consequências, nem o alcance moral, ou, se os apreendem, não os aplicam a si mesmos.” E prossegue: “A que atribuir isso? A alguma falta de clareza da Doutrina? Não, pois que ela não contém alegorias nem figuras que possam dar lugar a falsas interpretações. A clareza é da sua essência mesma e é donde lhe vem toda a força, porque a faz ir direito à inteligência. Nada tem de misteriosa e seus iniciados não se acham de posse de qualquer segredo, oculto ao vulgo. Será então necessária, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, tanto que há homens de notória capacidade que não a compreendem, ao passo que inteligências vulgares, moços mesmo, apenas saídos da adolescência, lhe apreendem, com admirável precisão, os mais delicados matizes. Provém isso de que a parte por assim dizer material da ciência somente requer olhos que observam, enquanto a parte essencial exige um certo grau de sensibilidade, a que se pode chamar maturidade do senso moral, maturidade que independe da idade e do grau de instrução, porque é peculiar ao desenvolvimento, em sentido especial, do Espírito encarnado. Nalguns ainda muito tenazes são os laços da matéria para permitirem que o Espírito se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve tira-lhes a visão do infinito, donde resulta não romperem facilmente com os seus pendores, nem com seus hábitos, não percebendo haja qualquer coisa melhor do que aquilo de que são dotados. Têm a crença nos Espíritos como um simples fato, mas que nada ou bem pouco lhes modifica as tendências instintivas. Numa palavra: não divisam mais do que um raio de luz, insuficiente a guiá-los e a lhes facultar uma vigorosa aspiração, capaz de lhes sobrepujar as inclinações. Atêm-se mais aos fenômenos do que à moral, que se lhes afigura cediça e monótona. Pedem aos Espíritos que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignos de penetrar os arcanos do Criador.”2

Logo, para ser espírita, não basta ser espiritualista, isto é, simplesmente crer na existência de algo além da matéria, como também não basta apenas crer na imortalidade da alma e na comunicabilidade dos Espíritos (mediunidade), nem mesmo ser médium. É necessário que a pessoa estude o Espiritismo, de forma continuada e sistemática, e aplique todos os seus esforços na vivência dos seus ensinamentos, de modo a melhorar-se moralmente.


Nas palavras do codificador: “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”.3


E ele disse mais, que “bem compreendido, mas sobretudo bem sentido”, o Espiritismo leva o ser humano a se tornar um homem de bem, o que o caracteriza “como verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro.”4


Segundo o codificador, o homem de bem poderia ser identificado por possuir várias qualidades, como as que segue:5


  • cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza, questionando, diariamente, sua consciência, para verificar se não violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele;

  • deposita fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria, sabendo que sem a sua permissão nada acontece e, então, se lhe submete à vontade em todas as coisas, tem fé no futuro, razão por que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais;

  • sabe que todas as dificuldades da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações e as aceita sem murmurar;

  • possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperar paga alguma, retribuindo o mal com o bem, tomando a defesa do fraco contra o forte e sacrificando sempre seus interesses à justiça;

  • seu primeiro impulso é para pensar nos outros, antes de pensar em si, é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos vê irmãos seus;

  • respeita nos outros todas as convicções sinceras e não condena, nem critica os que como ele não pensam;

  • não alimenta o ódio, nem rancor, nem desejo de vingança, pois, seguindo o exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas e só dos benefícios se lembra, por saber que perdoado lhe será conforme houver perdoado;

  • nunca se compraz em expor os defeitos alheios, e se a isso se vê obrigado, procura sempre a melhor forma de o fazer;

  • estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las, empregando todos os seus esforços para poder estar no dia seguinte, melhor do que na véspera;

  • nunca procura valorizar-se às custas de outrem, buscando sempre que possível ressaltar as qualidades alheias;

  • não se envaidece de suas riquezas, nem de suas vantagens pessoais, por saber que tudo o que lhe foi dado por Deus pode lhe ser tirado a qualquer momento;

  • usa mas não abusa dos bens que lhe sejam concedidos, pois sabe que é um depósito de que terá de prestar contas e que o mais prejudicial emprego que lhe pode dar é o de aplicá-lo à satisfação de suas paixões;

  • se a ordem social colocou sob o seu mando outras pessoas, trata-as com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho; e se está na condição de subordinado, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los conscienciosamente.

Desse forma, fica fácil concluir que o Espiritismo tem diretrizes bastante claras e objetivas e que para ser espírita não basta estar meramente informado de seus ensinamentos, senão compreendê-los profundamente e, sobretudo, vivenciá-los dentro dos limites e possibilidades de cada indivíduo.


BIBLIOGRAFIA:

1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 82. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.Introdução.item 1.

2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XVII.item 4.

3. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XVII.item 4.

4. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XVII.item 4.

5. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XVII.item 3.

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