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  • Júlio Zacarchenco

Pequeno estudo sobre gêneros, orientação sexual e o Espiritismo.

Atualizado: 21 de Ago de 2019

A falácia da teoria de gênero. A teoria de gêneros tem levantado acalorados debates em torno do tema. Conheça a posição de importantes cientistas e suas pesquisas a esse respeito, bem como os argumentos encontrados na Doutrina Espírita.



PEQUENO ESTUDO SOBRE GÊNEROS, ORIENTAÇÃO SEXUAL E ESPIRITISMO


Por Júlio Zacarchenco


O assunto de identidades de gêneros e orientações sexuais é bastante complexo e necessita de uma análise criteriosa a seu respeito, o que se torna um pouco difícil de se conseguir num simples texto. De qualquer forma, realizaremos esta tentativa de esclarecer, pelo menos, alguns pontos sobre o tema.


O primeiro impasse surgido neste tentame foi se o texto deveria ser conciso – e com isso, haveria o risco de ser simplista e pouco elucidativo-, ou mais extenso e completo, correndo-se o risco de as pessoas não terem paciência de o ler. Optamos pelo segundo risco, entendendo que aqueles que, realmente, queiram entender melhor a questão, não se importarão de gastar alguns minutos a mais nesta leitura.


Nos últimos tempos, temos assistido a grandes polêmicas sobre gêneros, com posicionamentos de todos os tipos, dentro e fora do campo da Ciência.


Para estudarmos o assunto dentro da perspectiva espírita, não podemos nos esquecer da advertência de Allan Kardec, o codificador da doutrina: “fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. (Allan Kardec, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. XIX, item 7, FEB).


Há outras duas colocações de Kardec que gostaríamos de também destacar aqui:


“Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo; se, porém, é uma verdade, não há diatribe que possa fazer dele uma mentira.” (Allan Kardec, “O Que é o Espiritismo?”, cap. I, FEB).


“O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da matéria: admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, não se detém onde esta última para: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade.” (Allan Kardec, “Obras Póstumas”, 1ª. parte, “Ligeira Resposta aos Detratores do Espiritismo”, FEB)


Esses posicionamentos nos levam a duas conclusões: não é possível destruir a verdade, por mais que se intente, mas as mentiras e os falsos conceitos e teorias acabam sempre desmoronando, inevitavelmente, a despeito de todos os esforços daqueles que tem interesses em levá-los adiante; a segunda conclusão é que o Espiritismo só acatará aquilo que seja devidamente provado pela Ciência, não aceitando meras especulações ou teorias sem fundamentos sólidos e provas.


Diante disso e antes de apresentarmos a visão espírita sobre o objeto dessa análise, é necessário que ouçamos o que a Ciência tem a nos dizer.


A teoria “queer” é uma teoria crítica que surgiu no início dos anos 90, influenciada pelos trabalhos de Lauren Berlant, Leo Bersani, Judith Butler, Lee Edelman, Jack Halberstam e Eve Kosofsky Sedgwick.


A expressão foi criada pela autora italiana feminista Teresa de Lauretis, que a apresentou numa conferência que organizou na Universidade da Califórnia, em 1990, e, também, na edição especial de “Diferenças: Um Jornal de Estudos Culturais Feministas”, que ela editou com base naquele evento.


A palavra inglesa “queer”, que, originalmente, era usada com os sentidos de “excêntrico", “estranho”, “não-convencional”, passou a ser usada também para representar gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros etc.


Essa teoria baseia-se tanto na oposição de feministas à afirmação de que o gênero é algo natural/essencial/inato no ser, quanto em estudos teóricos sobre a homossexualidade que examinam os atos e identidades sexuais como uma construção puramente social, completamente dissociados das questões biológicas/genéticas. A teoria “queer” estendeu as considerações dos estudos a respeito dos homossexuais (que focava na questão dos desajustes entre sexo, gênero e desejo), para qualquer tipo de atividade ou identidade sexual, incluindo, assim, os bissexuais, transgêneros e todas as inúmeras outras designações que tem surgido nos últimos anos.


Os seus teóricos defendem que o entendimento sobre os gêneros e a sexualidade como algo fixo é errado e que a identidade surge a partir de uma constelação de posições múltiplas e instáveis, que podem mudar a qualquer momento, sem limitação de vezes.


Esse posicionamento deriva-se principalmente da teoria pós-estruturalista, que tem como um de seus maiores representantes o filósofo francês Michel Foucault.


O principal debate nessa questão dos gêneros consiste em se a orientação sexual é natural (inata) na pessoa (posição essencialista), ou se a sexualidade é uma construção social e sujeita a mudanças.


O construtivismo social propõe que as teorias científicas são moldadas por seus contextos políticos e sociais e que as realidades que produzimos e os significados que criamos são resultado da interação social, sendo que a realidade objetiva (aquilo que existe fora do nosso mundo interior, subjetivo) desempenharia pouco ou nenhum papel no processo de conhecimento.


Para os teóricos “queer”, uma identidade não é algo inato, biológico, mas sim construída exclusivamente por essas interações sociais.


No entanto, segundo o Dr. Gustavo Arja Castañon, PhD e doutor em Psicologia, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, o conjunto de pressupostos do construtivismo social é “incompatível com a atividade científica, sendo essa conclusão uma derivação necessária de uma escolha anterior de que não podemos renunciar ao sentido moderno do termo ciência”. Em seu artigo, ele diz, ainda, que “a afirmação de que o conhecimento é construído socialmente é óbvia e compartilhada de formas diversas por várias teorias do conhecimento”, mas que “a questão se torna, portanto, que tipo de 'construção social' está sendo alegada. No caso do Construcionismo Social, é crença de que ao invés de descobrir uma realidade objetiva e independente, o ser humano constrói o conhecimento única e exclusivamente através de suas interações sociais, o que é uma crença inconsistente e incompatível com a razão e a ciência. Esta afirmação baseia-se em dois motivos. O primeiro é que, nas ciências empíricas, conhecimento é conhecimento de algo que tem sua existência no real, num mundo exterior que independe do sujeito do conhecimento. Se o ser humano constrói suas representações unicamente através de suas interações sociais sem nenhum contato com realidades objetivas que independem, em ao menos algum nível, tanto dele quanto destas interações, então estas representações podem ser muitas coisas, mais não são conhecimento. O segundo motivo é referente à impossibilidade de se atribuir todo o desenvolvimento do pensamento humano à suas interações sociais. Para elaborar este argumento, recorro a uma crítica à posição de Vygotsky, que foi o mais claro e consistente formulador dessa posição a respeito do conhecimento em Psicologia. Se todo desenvolvimento fosse resultado de uma aprendizagem que o indivíduo obteve através da mediação de um indivíduo mais experiente, da mediação social, então não poderíamos explicar aqueles tipos de desenvolvimento que acontecem com o aparecimento de ideias novas na história da humanidade. Ideias como a teoria da relatividade generalizada ou a geometria não-euclidiana não poderiam ser deduzidas de nenhuma das ideias e pressupostos vigentes na cultura de sua época. Não há como não admitir nestes saltos do conhecimento um papel ativo e criativo do indivíduo.” (“Construcionismo social: uma crítica epistemológica”, Gustavo Arja Castañon, Universidade Estácio de Sá, Temas psicol., vol.12, no.1, Ribeirão Preto, jun. 2004).


Muitos outros cientistas apresentaram também duras críticas à teoria do construtivismo social, como o físico estadunidense Steven Weinberg, prêmio Nobel de Física, que afirmou que a ciência genuína transcendia a história e a cultura contra o que ele percebia como um construtivismo social subversivo.


O Dr. Michael R. Matthews, professor honorário da Universidade de New South Wales, com graduação em Geologia, Psicologia, Filosofia, História, Filosofia da Ciência e Educação, asseverou que, “na prática, se não em teoria, o construtivismo social moderno contribuiu para o avivamento dos sentimentos anti-ciência e da polêmica renovada sobre o papel da ciência na sociedade e na educação. Alguns cientistas reagiram fortemente contra a nova forma de "superstição superior" e, em geral, as relações entre cientistas e analistas científicos se endureceram. (“Constructivism in Science Education: A Philosophical Examination”, Michael R. Matthews, Springer; 1998 edition).


Jordan Peterson é um psicólogo canadense, cujas principais áreas de estudo são a psicologia da anormalidade, social e pessoal, com particular interesse em ideologias e religiões. Ele é autor de “Maps of Meaning: The Architecture of Belief”, e de “12 Rules for Life: An Antidote to Chaos”, best-seller lançado em 2018. Ele formou-se em Ciência Política e Psicologia, doutorando-se, mais tarde, em Psicologia Clínica. Trabalhou como assistente e professor adjunto do departamento de Psicologia na Universidade de Harvard. Atualmente, é professor catedrático da Universidade de Toronto. No dia 1º. de dezembro de 2016, ele concedeu uma entrevista (em inglês) aos jornalistas Jason Tucker e Jason Vanden Beukel, do C2C Journal. Abaixo transcreveremos algumas de suas respostas às perguntas que lhe foram dirigidas. (a tradução da entrevista ao português foi realizada por Denny Marcel, com revisão de Eli Vieira).


No início da entrevista, Dr. Peterson descreve um pouco sobre sua carreira e interesses de estudos: “meu interesse primário sempre foi a psicologia da crença. Parcialmente crença religiosa, e ideologia como uma subcategoria da crença religiosa. Uma das proposições de Jung era que qualquer coisa que uma pessoa dá o mais alto valor é seu deus. Se as pessoas acham que são ateias, isso significa que elas estão inconscientes de seus deuses. Em um sistema religioso sofisticado, há uma polaridade positiva e negativa. Ideologias simplificam essa polaridade e, fazendo isso, demonizam e simplificam demasiadamente. Fiquei interessado em ideologia, em grande parte, porque fiquei interessado no que houve na Alemanha nazista, na União Soviética, e na Revolução Cultural na China, e ocorrências equivalentes em outras partes do mundo. Eu me concentrei mais na Alemanha nazista e na União Soviética. Eu estava particularmente interessado no que levou pessoas a cometerem atrocidades a serviço de suas crenças. O lema do “Museu do Holocausto” em Washington é ‘não devemos esquecer nunca’. Aprendi que você não pode se recordar do que você não entende. Pessoas não entendem o Holocausto, e elas não entendem o que aconteceu na Rússia. Tenho esse curso chamado ‘Maps of Meaning’ (Mapas do Sentido), que é baseado em um livro que escrevi com o mesmo nome, e ele descreve essas ideias. Uma das coisas de que estou tentando convencer meus alunos é que se eles tivessem vivido na Alemanha na década de 1930, eles teriam sido nazistas. Todo mundo pensa “eu não”, e isso não está correto. Foram em grande parte pessoas comuns que cometeram as atrocidades que caracterizaram a Alemanha nazista e a União Soviética. Parte da razão pela qual eu me vi envolvido com essa controvérsia (sobre identidade de gênero) foi devido ao que eu sei sobre como as coisas deram errado na União Soviética. Muitas das doutrinas que fundamentam a legislação à qual eu me oponho (Projeto de Lei C-16, transformado em lei em 2017) compartilham estruturas similares com as ideias marxistas que dirigiram o comunismo soviético. A coisa à qual eu mais me oponho era a insistência para que as pessoas usassem essas palavras inventadas como ‘xe’ e ‘xyr’ que são construções de autoritários. Não existe a menor esperança de que eu use a linguagem deles, porque eu sei a onde isso leva.”


Sobre a imposição legal do uso da linguagem, no caso da identidade de gêneros, Dr. Peterson considera isso um crime contra o direito constitucional (de seu país) e universal da liberdade de expressão. Questionado sobre isso, respondeu:


“Esse é um discurso muito coercitivo. A Suprema Corte nos Estados Unidos considerou que discurso coercitivo é inaceitável por duas razões. Uma é para proteger os direitos de quem fala, outro é para proteger os direitos do ouvinte. O ouvinte tem o direito de ser informado e instruído sem ser indevidamente influenciado por fontes ocultas. Se seu discurso é coercitivo, não é você quem está falando, é uma outra entidade que está compelindo seu discurso. Então eu atualmente acho que o Projeto de Lei C-16 é inconstitucional. Estou usando um caso legal americano, mas os princípios se aplicam. Isso só não chegou à nossa Suprema Corte ainda. Para mim isso se tornou um problema porque não existe a menor chance de que eu vá usar linguagem radical, autoritária. Eu estudei isso psicologicamente, e sei o que isso faz. Eu também fui profundamente influenciado pelo livro de (Aleksandr) Solzhenitsyn, ‘Arquipélago Gulag’. As pessoas dizem que o marxismo real nunca foi tentado – não na União Soviética, nem na China, em Camboja, na Coreia, aquilo não era o marxismo real. Eu acho esse argumento enganador, chocante, ignorante, e talvez também malévolo ao mesmo tempo. Especioso porque Solzhenitsyn demonstrou sem uma sombra de dúvidas que os horrores (do sistema soviético) eram uma consequência lógica das doutrinas embrenhadas no pensamento marxista. Eu acho que Dostoyevsky viu o que estava a caminho e Nietzsche escreveu sobre isso extensivamente na década de 1880, expondo as proposições que são encapsuladas na doutrina marxista, e alertando que milhões de pessoas iriam morrer no século XX por causa dela.”


A respeito do panorama em que vivemos, Dr. Peterson se expressou nos seguintes termos: “Há coisas sombrias acontecendo. Para começar, o Projeto de Lei C-16 codifica construtivismo social no tecido da lei. O construtivismo social é a doutrina de que todos os papeis humanos são socialmente construídos. Eles são desvencilhados da biologia subjacente e da realidade objetiva subjacente. Então o projeto C-16 contém um ataque à biologia e um ataque implícito à ideia da realidade objetiva. Isso também é flagrante nas políticas da Comissão dos Direitos Humanos de Ontário e na Declaração dos Direitos Humanos de Ontário. Ele diz que a identidade é puramente subjetiva. Então uma pessoa pode ser homem em um dia e mulher no próximo, ou homem em uma hora e mulher na próxima.”


O psicólogo tem sido duramente perseguido e corre sérios riscos de ser demitido da universidade e até mesmo de ser preso, simplesmente por não aceitar usar os pronomes relacionados à identidade de gênero. Sobre esse cenário, ele alerta para o grave problema de como, no Canadá, por exemplo, algumas leis, incluindo o código penal, estão sendo alteradas de forma que os princípios que normalmente fundamentam as leis estão sendo ignorados e deturpados. “Eles dizem ‘o que você diz machuca meus sentimentos’ – e isso é parte do ataque sobre o mundo objetivo – sua intenção é irrelevante. Minha resposta subjetiva é o fator determinante. A ideia de que eles ousariam implodir a doutrina da intenção é inacreditável.”


Alguns teóricos alegam que o uso desses pronomes inventados (de gênero) seria necessário para o respeito às identidades de gênero. Mas o Dr. Peterson explica: “Primeiro, “ele” e “ela” não são sinais de respeito. Eles são os termos mais casuais possíveis. Se eu me refiro a alguém como “ele” ou se eu me refiro a alguém como “ela”, isso não é um sinal de respeito, é só categorização do tipo mais simples e óbvio. Não há nada sobre isso que seja individual, ou característico de respeito. Segundo, você não tem o direito de exigir de mim que eu fale qualquer coisa com relação a você que seja respeitoso. O melhor que você pode esperar de mim é neutralidade cética e confiança corajosa. É isso. Isso é o que você consegue de mim. Neutralidade cética é ‘você é um balde de cobras, assim como eu. Entretanto, se você estiver disposto a manter sua palavra, e se eu estiver disposto a manter minha palavra, então nós somos capazes de nos envolver em interações mutuamente benéficas, logo é isso que nós vamos fazer’. A razão pela qual eu disse confiança corajosa é para distingui-la de inocência. Pessoas inocentes pensam que todo mundo é bom. Isso é falso, todo mundo não é bom. Mas agir de uma forma que seja hostil e cética e antissocial é completamente contraproducente. Então o que você faz se você é uma pessoa madura é, você diz ‘bem, beleza, você tem um lado sombrio, eu também. Isso não quer dizer que nós não podemos nos envolver em interações produtivas’. Nós fazemos isso mantendo nossas malditas palavras. A honestidade nos simplifica ao ponto onde nós podemos nos envolver em interações mutuamente benéficas. Mas você certamente não consegue meu respeito exigindo-o. Você não tem qualquer direito de me pedir para marcá-lo como especial de qualquer maneira.”


Quanto ao fato de as pessoas exigirem ser chamadas desta ou daquela forma, com base na maneira como elas próprias se sentem, ele diz: “bem, esse é outro problema que está se escondendo sob o argumento da subjetividade, uma vez que você divorcia a identidade de uma base objetiva. Essas pessoas (defensoras de múltiplas identidades de gênero e leis para protegê-las) afirmam que identidade é uma construção social, mas mesmo que essa seja sua afirmação filosófica fundamental, e que eles a tenham inserido na lei, eles não agem de acordo com aqueles princípios. Ao invés disso, eles vão direto à subjetividade. Eles dizem que sua identidade nada mais é do que seu sentimento subjetivo daquilo que você é. Bem, isso também é uma ideia exageradamente empobrecida do que é que constitui identidade. É como a alegação de uma criança egocêntrica de dois anos, e eu quero dizer isso tecnicamente. Sua identidade não é só como você sente sobre você mesmo. É também como você pensa sobre você mesmo, é o que você sabe sobre você mesmo, é seu julgamento informado sobre você mesmo. Ela é negociada com outras pessoas mesmo se você for vagamente civilizado porque de outra forma ninguém lhe suporta. Se sua identidade não for um híbrido daquilo que você é e daquilo que as outras pessoas esperam, então você é como a criança no parque com quem ninguém pode brincar. Além do mais, sua identidade é um veículo prático que você usa para manobrar a você mesmo durante a vida. Em sua identidade real, você é um advogado, você é um médico, você é uma mãe, você é um pai, você tem um papel que tem valor para você e outros. Nada disso é subjetivamente definido. Então isso (da identidade ser subjetiva) é completamente absurdo, e filosoficamente primitivo, e psicologicamente errado. Ainda assim, está inserido na lei. Eu acho que a lei faz das discussões de biologia e gênero ilegais. Acho que nós tivemos um gostinho disso na entrevista da TVO Agenda que eu tive, onde (o professor de estudos transgêneros) Nicholas Mack disse ‘bem, o consenso científico das últimas quatro décadas é que não há diferença biológica entre homens e mulheres’. Isso é uma proposição absurda. Há diferenças entre os sexos em todos os níveis de análise. Há escalas de masculinidade/feminidade que foram derivadas; elas são basicamente derivações secundárias de descritores de personalidade. Há diferenças enormes de personalidade entre homens e mulheres. Há literatura explorando diferenças entre homens e mulheres em personalidade em muitas, muitas sociedades no mundo todo. Eu acho que a maior publicação examinou 55 sociedades diferentes. E eles ranqueiam as sociedades por igualdade sociológica e política. A hipótese era que se você equaliza o ambiente entre homens e mulheres, você erradica as diferenças entre eles. Em outras palavras, se você trata meninos e meninas igual, as diferenças entre eles desaparecerão. Mas não é isso que os estudos mostraram. Na realidade, elas se tornam maiores. Aqueles são estudos de dezenas de milhares de pessoas. A teoria do construtivismo social foi testada. Ela falhou. A identidade de gênero é muito determinada biologicamente.”


Dr. Peterson é um forte questionador do chamado “politicamente correto”, demonstrando os perigos do que está ocorrendo com relação aos posicionamentos autoritários e explica: “eu acho que o que eu fiz foi tornar o geral concreto e específico, e tracei uma linha. Agora o preço que você paga por traçar uma linha – especialmente com o material politicamente correto – é que você vai ser difamado como um fanático. As pessoas da justiça social estão sempre do lado da ‘compaixão’ e dos ‘direitos das vítimas’, então objetar a qualquer coisa que eles façam lhe torna instantaneamente um perpetrador. Não há lugar onde você possa permanecer sem ser vilificado, e é por isso que isso continua rastejando adiante.” Mas essa compaixão e interesse pelas “vítimas”, apresentados por muitas dessas pessoas seriam autênticos? Segundo ele, não: “a coisa é que se você substitui compaixão por ressentimento, então você entende a esquerda autoritária. Eles não tem compaixão, não há compaixão ali. Não há compaixão alguma. Há ressentimento, fundamentalmente.”

O especialista em Ciência Política, Psicologia Social e ideologias afirma mais: “palavras como zhe/zher (pronomes de identidade de gênero) são as vanguardas de uma ideologia de esquerda radical que é assustadoramente similar ao marxismo”. E ele esclarece a lógica deles: "Identidade atribuída é opressão (para a visão de esquerda). Identidade atribuída é a identidade que é atribuída a você pela estrutura de poder – o patriarcado. A única razão pela qual o patriarcado lhe designa um status é para lhe oprimir. E assim a linguagem que o liberta do status é linguagem revolucionária. Então, como um exemplo de linguagem revolucionária, nós (a esquerda) vamos explodir as categorias de identidade de gênero, porque o conceito de mulher é opressivo. A filosofia antipatriarcado é predicada na ideia de que todas as estruturas sociais são opressivas, e não muito mais que isso. Então atacar a estrutura é questionar seus esquemas categóricos em todo nível possível de análise. E o nível mais fundamental que os radicais antipatriarcado elencaram é gênero. Ele é uma peça de identidade que crianças geralmente assimilam por volta dos dois anos – ele é bastante fundamental. Você poderia argumentar que não há nada mais fundamental. Entretanto, eu não sei de nada que seja mais fundamental, mais básico, e que teria sido considerado como mais inquestionável, mesmo há cinco anos. Também há essa ideia de que você não deveria dizer coisas que machucam os sentimentos das pessoas – essa é a filosofia da esquerda compassiva. Isso é tão infantil que está além da compreensão. O que disse Nietzsche: ‘você pode julgar o espírito de um homem pela quantidade de verdade que ele pode tolerar’. Eu também falo isso aos meus alunos, você pode dizer quando está recebendo educação porque você está horrorizado. Então, se for agradável e seguro, é como se você não estivesse aprendendo nada. As pessoas aprendem as coisas do jeito difícil.”


Para termos uma melhor ideia da real situação que vivemos, trazemos algumas informações que corroboram os posicionamentos do Dr. Peterson.


Em Nova Iorque/EUA, foi apresentada uma lista de 31 diferentes identidades de gênero que são protegidas pela lei local. As empresas que não respeitem e não se ajustem às escolhas de identidade de gênero feitas por cada indivíduo correm o risco de receberem pesadas multas de seis dígitos, de acordo com as regras implementadas pela Comissão de Direitos Humanos da cidade. Ora, segundo a teoria “queer”, as pessoas podem mudar sua identidade a qualquer momento, de forma que, alguém poderia, por exemplo, se apresentar para o “check in” num hotel com determinada identidade de gênero e, após sua estadia, no momento do “check out”, apresentar-se sob outra identidade. A hipótese pode parecer implausível, mas os fundamentos de tal teoria nos levam a concluir que, por mais absurda, essa hipótese seria possível.


O Direito tem como função regular o comportamento livre do ser humano, disciplinando os direitos e deveres decorrentes das várias relações sociais, no intuito de estabelecer a ordem, a estabilidade e a segurança dessas relações e, portanto, da sociedade. Com vistas a isso, estabeleceu-se a segurança jurídica como um princípio essencial (e inerente) ao Estado de Direito, de modo que os membros da sociedade tenham prévio e claro conhecimento das regras do jogo, isto é, das regras que os vão dirigir, a fim de poderem se ajustar e agir dentro da legalidade. Nesse sentido, como entender essas legislações que impõem que os cidadãos usem as nomenclaturas e pronomes de tratamento relacionados às identidades de gênero, que, a cada dia, aumentam incrivelmente em número?! Há não muito tempo, falava-se em, talvez, menos de 10 identidades de gênero; recentemente, como mencionado, a cidade de Nova Iorque estabeleceu 31 diferentes identidades. O Facebook do Reino Unido oferece aos seus usuários nada menos do que 71 diferentes opções de identidades de gênero. Que tipo de critério científico é usado para serem criadas essas identidades? Aí está a questão: a teoria “queer” alega que basta o sentimento subjetivo do indivíduo e que este sentimento pode mudar a qualquer instante, sem nenhum critério. Do ponto de vista jurídico, que tipo de estabilidade nas relações sociais poderíamos ter ante um caráter tão volátil e efêmero dessas identidades de gênero? Não há como estabelecer regras/leis seguras, seja em nível nacional, estadual ou municipal, porque esses são elementos totalmente subjetivos e, como dito, voláteis. Pelo que se pode perceber, a legislação da cidade de Nova Iórque já está defasada, porque já se fala em 71 identidades. As pessoas que estejam submetidas a legislações tais, que são arbitrárias, passam a se sentir intimidadas, com receio de infringir tais regras, sem mesmo terem a intenção de ofender ou agredir o sentimento de ninguém, e de serem severamente punidas por isso. Foi o ponto defendido pelo Dr. Jordan Peterson. Se tudo está fundado numa questão subjetiva, como se defender juridicamente da acusação de alguém que afirma ter seu sentimento de identidade de gênero ofendido, desrespeitado? É importante destacar que aqui não se trata de criticar os direitos fundamentais garantidos a qualquer cidadão. Homossexuais, bissexuais, transgêneros etc. são cidadãos comuns; logo, tem direitos fundamentais. O problema é quando se quer estabelecê-los como cidadãos especiais, diferentes, o que é um paradoxo, porque afronta a própria luta que esses teóricos dizem defender: a de igualdade entre todos. O que eles não se dão conta é que, uma vez estabelecidas tais regras, os próprios indivíduos incluídos no conceito “queer” correm o risco de também serem punidos, porque, há de se convir que com tantas nomenclaturas e identidades artificialmente inventadas, nem mesmo eles conseguirão assimilar e compreender tudo. Numa entrevista da CBC News, o professor de Física e A. W. Peet, que é transgênero, disse que para evitar se esquecer com quais pronomes de gênero as pessoas que conhece querem ser tratadas, ele gravou na lista de contatos de seu celular, após o nome de cada um, o pronome com que cada pessoa quer ser tratada e que, antes de falar com o indivíduo, dá uma conferida no celular para não errar. Ele defende que todos deveriam seguir o seu exemplo. Convenhamos que isso é um exagero que beira o ridículo e prova o nosso argumento, que tais nomenclaturas e palavras estão gerando problemas e embaraços até para eles próprios.


Em 2010, o canal público da Noruega (NRK1) exibiu em rede nacional o documentário “Hjernevask” ("Lavagem cerebral"), uma minissérie documentalista norueguesa sobre ciência. A série, composta por sete episódios, foi criada e apresentada pelo comediante e sociólogo Harald Eia. Cada episódio apresentou Eia entrevistando cientistas sociais noruegueses sobre suas teorias de gênero e construtivismo social, e depois confrontando-os com dados e posicionamentos científicos contrários que obteve de especialistas em outros campos, como Biologia e Psicologia Evolutiva. Os especialistas entrevistados para a série incluíram Simon Baron-Cohen, Steven Pinker, Simon LeVay, David Buss, Glenn Wilson e Anne Campbell. O documentário causou constrangimento para os cientistas sociais noruegueses e gerou muito debate público naquele país. A série obteve estrondoso sucesso e seu criador recebeu o “Prêmio Fritt Ord” por "ter precipitado um dos debates mais acalorados sobre a pesquisa nos últimos tempos". A credibilidade dos teóricos de gênero nos países escandinavos ficou tão abalada que, pouco tempo depois do lançamento do documentário, o Conselho Nórdico de Ministros (que inclui autoridades da Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia e Islândia) ordenou a suspensão total dos financiamentos dirigidos ao “Nordic Gender Institute” (Instituto Nórdico de Gênero), promotor de ideias ligadas às teorias de gênero, levando-o, assim, ao seu fechamento.


Todos os episódios dessa série encontram-se disponíveis na internet e são profundamente esclarecedores. Aqui nos deteremos, principalmente, em 3 deles: “O Paradoxo da Igualdade de Gênero”, “Homo/Hétero” e “Inato ou Aprendido”.


Assistindo ao documentário, verifica-se claramente que, enquanto os teóricos do gênero afirmam que não há fundamento biológico nas diferenças de comportamento entre homens e mulheres, sem, contudo, provarem nada, ou, pelo menos, mostrarem fortes evidências do que defendem, tratando essas diferenças como mero resultado de construções sociais, os outros cientistas mostraram os resultados de suas experiências ( base empírica), demonstrando, cientificamente, que há, sim, diferenças inatas nas preferências e comportamentos de homens e mulheres (incluindo homossexuais), determinadas por questões biológicas.


Outra observação importante a ser destacada é a conduta profundamente científica e ética dos cientistas que demonstraram as influências biológicas nas identidades e preferências dos gêneros, os quais não negaram nem afastaram a hipótese de o meio ter efeitos no comportamento e interesses das pessoas, ressaltando, contudo, que essa influência não é nem exclusiva e nem maior do que as biológicas. Ademais, enfatizaram a importância de se conhecer profundamente essas interferências biológicas, a fim de que a Ciência possa desenvolver formas de ajudar as pessoas a superar determinadas condições impostas pela biologia do corpo, que sejam indesejáveis, quando possível, naturalmente. Os teóricos do gênero, contudo, agiram de forma totalmente diferente, isto é, quando confrontados pelo documentarista, que lhes apresentou os dados científicos devidamente provados pelos outros cientistas, alguns simplesmente criticaram, sem nenhum fundamento, as pesquisas de seus colegas, afirmando não acreditarem nelas, sem ao menos se inteirarem melhor dessas pesquisas, negando-as aprioristicamente, e outros limitaram-se apenas a dizer que tais pesquisas e dados científicos não lhe interessavam, que eram irrelevantes, todos eles numa atitude totalmente anticientífica, sem nenhum compromisso com a verdade.


Na sequência, apresentaremos alguns dados que constam do documentário.


A Noruega foi eleita o país com a maior igualdade de gênero do mundo. No entanto, no que diz respeito a escolhas de profissões por homens e mulheres naquele país, constatou-se que há ainda algumas que são predominantemente exercidas por homens e outras, por mulheres (quase 90% dos enfermeiros são mulheres; e apenas cerca de 10% dos engenheiros são mulheres). A divisão de gêneros nas profissões segue espantosamente estável desde a década de 80, o que passou a ser chamado de “o paradoxo norueguês da igualdade de gênero”.


Kristin Mile, que chefiou a Comissão de Igualdade de Oportunidades (entre homens e mulheres) do governo norueguês, afirmou que não obstante as medidas governamentais tomadas para diminuir essas diferenças, incluindo tentativas sucessivas do governo em contratar enfermeiros do sexo masculino e engenheiras do sexo feminino, nada mudou significativamente nas últimas décadas. Ela afirmou, também, que não se trata, de forma nenhuma, de discriminação com relação aos gêneros, já que foram criadas vagas exclusivas para mulheres e para homens, nas profissões nas quais esses gêneros não tinham grande participação. Mesmo assim, nada mudou; a maior parte dessas vagas específicas ficou sem ser preenchida.


Camilla Schreiner, da Universidade de Oslo, fez uma pesquisa com garotas de 20 países, para entender por que razão as garotas, de um modo geral , se interessam menos pelas Ciências Exatas e Tecnologia. Os resultados mostraram que quanto mais desenvolvido e igualitário é o país, menos similares são os interesses dos gêneros. Relembrando: os teóricos do construtivismo social defendem que os interesses dos gêneros surgem exclusivamente em razão da influência do meio, das pressões sociais. Mas, com base nas experiências e estudos das neurociências, restou demonstrado que quanto mais livres são as pessoas na sociedade e quanto mais oportunidades elas tem na sociedade, mais espaço há para elas fazerem as suas opções pessoais, e essas opções, com base nos resultados das pesquisas, tendem a ser direcionadas, na maioria das vezes, por predisposições genéticas e hormonais. Dessa forma, numa sociedade livre e igual, homens e mulheres vão mais acentuadamente manifestar suas diferenças, porque terão a oportunidade de exercer suas tendências inatas. A teoria do gênero, portanto, desmorona ante as provas científicas.


O Dr. Richard Lippa, professor de Psicologia na Universidade do Estado da Califórnia/Fullerton, realizou, em parceria com a BBC, uma gigante pesquisa científica que contemplou mais de 200.000 pessoas (homens e mulheres) em 53 países, em todos os continentes. As pessoas eram perguntadas sobre com o que gostariam de trabalhar. O resultado: os homens são predominantemente interessados em trabalhar com áreas exatas, de tecnologia, enquanto as mulheres, majoritariamente, preferem trabalhar com pessoas. Sobre a alegação de que as pessoas, homens e mulheres, seriam, desde a infância, influenciadas pelo meio para seguirem carreiras tais e quais, o cientista argumenta que, se assim fosse, os dados científicos não mostrariam que em todos os 53 países, as escolhas são basicamente as mesmas, isto é, em países onde a igualdade de gêneros é maior, onde há maior liberdade de escolhas, como Noruega, Suécia, Finlândia, os dados teriam de ser significativamente diferentes dos países como Arábia Saudita, Paquistão, Índia, Cingapura. Ele não nega a existência de um fator social, mas afirma que os dados mostram que esse não é nem o único nem o fator determinante para as escolhas dos gêneros, existindo, portanto, um fator biológico (inato) que ainda é preponderante sobre os demais. Diferenças de escolhas de tarefas existem desde o início do desenvolvimento do ser humano e essa realidade tem se mantido mais ou menos semelhante ao longo de todo o nosso processo evolutivo. Os dados de sua pesquisa também mostraram que homens gays, de forma geral, tinham escolhas de profissão distintas das feitas por homens heterossexuais, equiparando-se, no entanto, às escolhas feitas por mulheres heterossexuais. E as lésbicas apresentavam escolhas que correspondiam às escolhas feitas por homens heterossexuais.


O Dr. Trond Diseth, psiquiatra, professor da Universidade de Oslo e diretor médico do Departamento de Psiquiatria Infantil do Hospital da Universidade de Oslo, trabalha com crianças nascidas com deformidades ou má formação genitais. Ele também estudou o comportamento de crianças consideradas saudáveis com idades máximas de 9 meses, que eram colocadas numa sala com 10 brinquedos diferentes , sendo 4 considerados brinquedos de meninos, 4 de meninas e 2 neutros, desenvolvendo um teste para constatar se há diferenças de escolhas de brinquedos por crianças em baixa idade de gêneros diferentes. O experimento mostrou que a maioria dos meninos escolhe brinquedos masculinos e as meninas, brinquedos femininos. O Dr. Diseth afirma que as crianças já nascem com uma disposição biológica clara quanto ao seu gênero, identidade e comportamento, sendo que o ambiente, as expectativas e valores que nos cercam reforçariam ou diminuiriam isso. Portanto, o meio social não seria determinante na formação ou na alteração da identidade de gênero.


O Dr. Simon Baron-Cohen é um psicólogo clínico britânico, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, diretor do Centro de Pesquisas sobre o Autismo daquela universidade e, também, membro do Trinity College (famosa por possuir 32 ganhadores do Prêmio Nobel). Ele fez experiências inovadoras com crianças recém-nascidas, com apenas um dia de vida, que consistiam em apresentar para o recém-nascido olhar, de ambos os gêneros, um objeto mecânico e um rosto de uma pessoa. Eles mediram o tempo que o bebê olhava para cada um dos objetos e descobriram que a maioria dos meninos olhava por mais tempo para o objeto mecânico, sendo que as meninas olhavam por mais tempo para o rosto. Nesse estudo, não seria possível se cogitar a hipótese de preconceitos ou interferências sociais introduzidas nas crianças, uma vez que os experimentos foram realizados com bebês de um dia de vida. Logo, a única explicação para tais comportamentos distintos entre os gêneros seria uma causa biológica, portanto, inata. Os estudos científicos vão além: mostram que meninos e meninas, ainda no útero, produzem hormônios em quantidades diferentes, sendo um deles, a testosterona. Meninos produzem 2 vezes mais testosterona do que meninas e esse hormônio influencia na forma como o cérebro se desenvolve. Um estudo realizado mediu o nível de testosterona na criança ainda no útero e acompanhou o desenvolvimento dela após o nascimento. O que descobriram foi que quanto mais alto o nível de testosterona no bebê, ainda no útero, mais a criança, já nascida, demora para desenvolver a linguagem e menos contato visual ela faz com outras pessoas, demonstrando um desenvolvimento social mais lento. Essa observação foi feita com crianças de 1 a 2 anos, portanto, ainda sem praticamente sofrerem grandes influências do meio. A pesquisa também mostrou que meninas que tinham produzido um alto nível de testosterona ainda no útero, quando já nascidas, apresentavam um padrão muito mais masculino de preferência por brinquedos. O cientista e sua equipe tem acompanhado essas crianças e verificaram que, na idade de 8 anos, as crianças que tinham apresentado um maior nível de testosterona na vida intrauterina tinham maiores dificuldades com empatia, em reconhecer as emoções dos outros, ou se colocar na posição do outro, tomando a perspectiva do outro, mas, em contrapartida, tinham um maior interesse em sistemas, em saber como as coisas funcionam. Portanto, o nível de testosterona em nosso organismo nos gera precocemente tipos diferentes de interesses e certos padrões de comportamentos. O Dr. Simon assevera que “mesmo que você ignore o sexo da pessoa, só pela observação dos seus níveis hormonais, é possível prever o seu padrão de interesses”. Esses níveis hormonais são comandados por diferentes genes nos cromossomos X e Y. Isso explicaria o “paradoxo norueguês da igualdade de gênero”.


A Dra. Anne C. Campbell, professora de Psicologia na Universidade de Durham, especializada em Psicologia Evolucionista, estuda como o nosso corpo e psique são influenciados pela evolução. De acordo com suas pesquisas, dentro da perspectiva da evolução do ser humano, os processos biológicos vão selecionando as melhores características genéticas com fim a aperfeiçoar e favorecer a perpetuação da espécie. Assim, a evolução desenvolveu uma certa orquestração psicológica e biológica para que as mulheres, que são quem dá a vida a novo ser humano, pudessem realizar essa tarefa da melhor e mais prazerosa forma possível. Dessa forma, as características inatas das mulheres relacionadas à empatia, a se evitar confrontos nos quais ela colocaria em risco a sua própria existência, a se evitar qualquer tipo de exclusão social, favorecem a mulher a sobreviver mais, a ter mais chances de se reproduzir, a trazer mais descendentes à vida e , assim, permitir que esses descendentes continuem a perpetuação da espécie. Experimentos científicos, que colocavam homens e mulheres sob uma condição de grande estresse, como, por exemplo, dizer às pessoas que seriam submetidas a um tratamento de choque elétrico e que aguardassem a preparação do equipamento numa sala, e depois perguntar se preferiam aguardar sozinhas ou com alguma outra pessoa, observaram que as mulheres, majoritariamente, faziam a opção por aguardar com outras pessoas, enquanto os homens preferiam ficar isolados, sozinhos. Isso também explicaria o porquê de homens e mulheres escolherem profissões diferentes; enquanto mulheres tendem a preferir, espontaneamente, profissões como enfermagem, educação, trabalho social, que são tarefas cooperativas e de interação social, homens preferem tarefas como engenharia, tecnologia. Embora haja indivíduos homens e mulheres que apresentem interesses opostos aos que foram observados, de uma forma geral, há padrões inatos provados e inegáveis sobre essa questão. Sobre as alegações dos teóricos do gênero de que as diferenças entre homens e mulheres se restringiriam, biologicamente falando, aos órgão reprodutivos, a Dra. Campbell responde: “de onde viriam as diferenças entre os corpos masculino e feminino, entre os sistemas reprodutivos do homem e da mulher? A resposta: evolução. E o que comandaria o surgimento dessas diferenças físicas? O que é responsável pela produção de hormônios e peptídios que mantêm as coisas funcionando? O cérebro humano, principalmente, por meio dos sistemas de retroalimentação. Seria, portanto, inadmissível que se pensasse que a evolução agiu tão intensamente sobre os sistemas reprodutivos e que não teria tido nenhum efeito sobre o nosso cérebro, o mais complexo órgão de nosso organismo”.


Dr. Steven Pinker é um psicólogo e linguista canadense, professor de Psicologia na Universidade de Harvard, tendo lecionado durante 21 anos no Departamento do Cérebro e Ciências Cognitivas do Massachussets Institute of Technology. Diz ele: “Penso que o conceito de Biologia nos ajuda a saber o quanto podemos mudar (as coisas) de uma forma humana. Por exemplo, eu diria, se homens e mulheres não são exatamente iguais, então o objetivo de se ter 50% de mulheres engenheiras, 50% de pesquisadoras em linguagem infantil, e 50% de mulheres em tudo, isso será uma meta desumana, porque vamos impedir que algumas pessoas façam o que gostariam. Então, a Biologia nos mostra quais metas são humanamente razoáveis. A existência da natureza humana significa que você não pode simplesmente inventar a ideia de uma ideal utopia, de uma sociedade hipotética, escrever isso num papel e daí impor isso às pessoas e esperar conseguir alcançar essa sociedade. Não acho que isso funcione, acho que tivemos experimentos no século XX que tentaram isso, como na China maoísta, que resultaram em desastres humanos”.


O Dr. Leif E. Ottesen Kennair, professor de Psicologia na “Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia”, apresentou um quadro bastante interessante e preocupante na estrutura política norueguesa e seu relacionamento com a Ciência, conforme ocorria à época da produção do documentário: no que dizia respeito aos estudos sobre sexualidade, por exemplo, cientistas biológicos que estudavam o assunto não recebiam nenhum financiamento estatal, no entanto, havia financiamentos do governo para projetos que criticavam diretamente as pesquisas científicas da Biologia. A posição do Dr. Kennair é a de que a política deve se manter, o quanto possível, afastada da Ciência e não interferir nela, para defender interesses partidários e ideológicos.


Ainda sobre as diferenças biológicas dos cérebros dos homens e mulheres, incluindo os homossexuais, no Instituto Karolinska, em Estocolmo, Suécia, um dos mais importantes centros de pesquisas científicas da Europa, um experimento demonstrou que os cérebros de homens gays e de mulheres heterossexuais compartilham o mesmo tipo de reação a determinados odores, o que não ocorre,de modo geral, nos cérebros de homens héteros ou de lésbicas.


O Dr. Simon Levay é um neurocientista anglo-americano, reconhecido por seus importantes estudos que demonstraram as correlações entre as estruturas cerebrais e a orientação sexual. Em 1991, LeVay publicou o seguinte artigo na revista Science, uma das mais importante e sérias revistas científicas do mundo: "Uma diferença na estrutura hipotalâmica entre homens heterossexuais e homossexuais". Este artigo relatou a existência de uma diferença entre o tamanho médio do terceiro Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior (INAH3) nos cérebros de homens heterossexuais e de homens homossexuais: o INAH3 era mais de duas vezes maior em homens heterossexuais que em homens homossexuais. O tamanho do INAH3 de homens homossexuais era o mesmo que o das mulheres heterossexuais. LeVay escreveu que "este achado indica que o INAH é dimórfico com relação à orientação sexual, pelo menos em homens, e sugere que a orientação sexual tem um substrato biológico". LeVay acrescentou: "a existência de ‘exceções’ na presente amostra (ou seja, homens presumidamente heterossexuais com pequenos núcleos INAH 3 e homens presumidamente homossexuais com grandes), sugere a possibilidade de que a orientação sexual, embora uma variável importante, não seja o único determinante do tamanho do INAH 3. Também é possível, no entanto, que essas exceções sejam devidas a falhas técnicas ou a má distribuição dos participantes da pesquisa nos devidos grupos a serem analisados.”


Para defender o seu ponto de vista de que tudo surge do meio social, teóricos do construtivismo social afirmam que os números de homossexuais variariam de cultura para cultura, apresentando-se muito maior em sociedades que fossem mais liberais e aceitassem esse tipo de comportamento, embora essa teoria nunca tenha sido provada; e, no entanto, análises evidenciam que, por exemplo, os porcentuais de homens heterossexuais e homossexuais em uma tribo na Nova Guiné não diferenciam muito das porcentagens encontradas na Noruega. E, isso se repetiria em vários países e diferentes culturas, indicando que o fator ambiental, social, pouco importa na determinação da orientação sexual dos indivíduos.


Glenn Daniel Wilson é um dos mais famosos psicólogos britânicos, membro da British Psychological Society, professor da Universidade de Londres, com inúmeros artigos em periódicos científicos. Ele realizou pesquisas nas quais observou grupos de crianças, nos períodos da infância à idade adulta. Segundo ele, “quando você tem o que é conhecido como não-conformidade de gênero na infância, em que crianças em pequena idade, meninos e meninas, fazem coisas que normalmente crianças do sexo oposto tendem a fazer, as chances são de cerca de 75% dessas crianças se tornarem um adulto gay”. Glenn, assim como Dr. Levay, também afirma que devemos observar a vida fetal da criança para entender por que alguns homens gostam de mulheres e outros de homens. Segundo ele, os estudos científicos levaram à formulação da teoria de hormônios pré-natais de orientação sexual, os quais mostram que nos homens gays, ainda na vida intrauterina, por volta da 8ª. a 12ª. semana da fase fetal, ao receberem uma descarga hormonal, a testosterona não teria alcançado determinados dispositivos (“switches”) críticos na parte central do cérebro, para ativá-los, o que levaria esses indivíduos do sexo masculino a terem preferência por outros homens, em vez de por mulheres.


O Dr. Trond Diseth, já mencionado acima, acompanhou um caso muito interessante de hermafroditismo, que prova que a teoria dos gêneros, que defende que a identidade de gênero e sexual é resultado meramente do meio, é absolutamente falsa. Vitor nasceu no Equador, em 1986, recebendo desde o nascimento o nome de Vitória e sendo sempre tratada como menina. Quando tinha 6 meses de idade, ele foi abandonado dentro de uma cesta na escadaria de um hospital num vilarejo daquele país. Os funcionários do hospital o acharam e levaram-no para os médicos, que, ao examinarem o bebê, estabeleceram que o seu gênero era indefinido, porque seus órgãos eram malformados. Naquela época, o protocolo de tratamento para crianças em tais condições tinha como base os estudos da sociologia, do construtivismo social, das teses feministas, como esclarece o Dr. Diseth. Essas teorias afirmavam (e ainda afirmam) que as crianças nascem neutras em gênero e que a sua identidade de gênero seria formada durante os dois primeiros anos de vida e de acordo com a forma com que os seus pais as educassem. Assim, o protocolo de tratamento indicava que essas crianças deveriam ser operadas antes de atingir os dois anos de idade, e que, não importava qual dos órgãos sexuais iria permanecer, pois que com a educação dos pais direcionada para o gênero que correspondesse ao órgão remanescente, isso e o ambiente resolveriam completamente a questão de identidade. Vitor foi operado aos nove meses de idade, ainda no Equador, para que ficasse sendo do sexo feminino, conforme tinha sido criado desde o nascimento. E como menina foi criada dentro de um orfanato. Quando tinha 3 anos, foi adotada por um casal norueguês, mudando-se para a Noruega, sendo ainda criada como menina. Mas o tratamento não funcionou. Em casa ou quando ia para o jardim de infância, sempre recusava-se a usar roupas de menina, queria sempre brincar com meninos e nas brincadeiras consideradas de meninos, até que os pais adotivos decidiram levar a criança para o Hospital da Universidade de Oslo, onde a equipe médica decidiu realizar nova cirurgia para caracterizar ainda melhor o seu órgão sexual feminino. A criança foi encaminhada ao Departamento de Psiquiatria Infantil no dia seguinte à cirurgia, passando a ser acompanhada e tratada pelo Dr. Diseth. No prontuário constava que a operação de normalização da genitália tinha sido bem sucedida, sem complicações pós-operatórias, mas que a criança apresentava um estado psicótico e por isso estava sendo encaminhada para a Psiquiatria. O médico levou a criança de 6 anos e meio para a brinquedoteca e pediu que ela se desenhasse. O desenho mostrava uma criança com um pênis que tinha sido cortado do corpo. E Vitória dizia que ela era um menino e, apontando para o desenho, afirmava que agora o menino estava morto e que isso aconteceu porque o “pintinho” (pênis) começou a crescer e que cresceu até a boca, de forma que a criança não podia comer; por isso, tiveram que operá-la e cortar o “pintinho”, mas que a criança morreu. Vitória dizia mais, sempre apontando para o desenho: que a criança e o “pintinho” foram enterrados em enterros diferentes, e que todos compareceram ao enterro do “pintinho”, mas que ninguém foi ao enterro do menino. De acordo com o protocolo médico da época, o Dr. Diseth deveria seguir tratando-a para que fosse mantido aquele gênero feminino, trabalhando para que fosse excluído da criança todo e qualquer traço masculino e , ainda, manter aquela condição (das cirurgias) em segredo. Mas, ante uma experiência tão forte e observando que outras experiências semelhantes não tinham sido bem-sucedidas, ele decidiu que não iria mais seguir aquele protocolo de tratamento, porque era completamente errado. Muitas das outras crianças observadas pelo psiquiatra, que se encontravam em experiências semelhantes, periodicamente entravam em depressão, desenvolvendo pensamentos suicidas, sendo que várias chegaram a tentar o suicídio e algumas conseguiram se matar. Por conta de problemas de identidade de gênero, Vitória também passou por muitos períodos de grave depressão, sendo que, em um deles, tentou o suicídio. Quando tinha 16 anos, Vitória telefonou para o Dr. Diseth e perguntou-lhe o que ela era, o que se passava com ela, já que se sentia menino desde quando se entendia por gente, desde as suas primeiras memórias da infância , e que não suportava mais aquilo. Foi então que o médico chamou-lhe ao seu consultório e contou-lhe toda a verdade sobre a malformação da genitália masculina, as cirurgias e o sigilo que lhe impuseram, para que nunca contasse à criança, de modo a não “atrapalhar” a sua identidade feminina. A partir disso, Vitória decidiu parar de tomar os hormônios femininos, fez um tratamento de reversão dos efeitos desses hormônios e , também fez uma cirurgia de reconstrução da genitália masculina, tornando-se Vitor. Em suas próprias palavras: “Eu gostaria que a pessoa que eu vejo ( em minha mente, um ser do sexo masculino, que seu sempre quis ser) fosse o menino deitado na mesa de operações, quando eu tinha 6 meses de idade, e que teve a vida literalmente destruída por causa de médicos, professores e cirurgiões presos a teorias e práticas baseadas nesse tal de John Money.” O caso de Vitor foi decisivo para que os médicos noruegueses abandonassem completamente a teoria de John Money de que a identidade de gênero é aprendida pelas influências do meio e não resultado de fatores biológicos. Agora, eles colhem várias amostras celulares dos nascidos com gênero aparentemente indefinido e verificam os níveis dos hormônios que afetaram/influenciaram o cérebro na vida intrauterina, para chegarem à conclusão sobre o real gênero (biológico) da criança e sobre que tipo de cirurgia realizar. Esse novo protocolo de tratamento eliminou os grandes problemas que existiam de depressão grave e tentativas de suicídio nas crianças e adolescentes que eram tratados com o antigo protocolo.


Muitos dos teóricos do gênero rechaçam as pesquisas e descobertas científicas biológicas que provam que há um determinante componente biológico para a questão das identidades de gênero e orientações sexuais, sob a alegação de que são irrelevantes, ou, ainda , de que elas estimulariam as discriminações, o que não tem fundamento. Basta dizer que vários dos cientistas biológicos engajados nessas pesquisas são homossexuais e, portanto, não teriam nenhum interesse em fomentar qualquer tipo de discriminação nesse sentido, obviamente, em defesa própria. E, ademais, como bem destacou o Dr. Levay, que é gay: “Eu sou um homem gay e sou feliz, e fiz esse tipo de pesquisa (apontada acima) , como também outras pessoas gays fizeram, e acho que a motivação básica desse tipo de pesquisa é entender os fundamentos da natureza humana e da diversidade humana, e acho que a Biologia tem muito a ver com isso.” Ele realizou, ainda, estudos sobre a relação entre a atitude das pessoas com os homossexuais e o entendimento das pessoas sobre qual a causa da homossexualidade. Assim como esse, muitos outros estudos psicológicos nos EUA concluíram que quando as pessoas acreditam que a orientação sexual tem uma base biológica, isso melhora sua atitude em relação aos gays, no sentido que aceitam melhor a homossexualidade, tem menos medo que as suas crianças sejam, por exemplo, ensinadas a serem gays por seus professores homossexuais etc.


Logo, a Biologia pode nos ajudar a compreender, dentro desse estudo, os mecanismos naturais (inatos) que determinam a formação dos gêneros e orientações sexuais nos indivíduos, levando-nos, também, a um melhor entendimento sobre aquilo que poderia ser mera criação cultural, volátil, ou mesmo sobre o que poderia ser, em hipótese, conflitos psicológicos das pessoas e que, portanto, necessitariam de orientação especializada.


E, merece-nos a melhor atenção a grave advertência do Dr. Steven Pinker, de Harvard: “Se você estabelece um determinado objetivo, como acabar com a discriminação, você não teria de, para isso, ter de maquiar a realidade ou distorcer a Ciência, apenas para ir adiante com o seu objetivo; isso seria um tipo de mentira e não há justificativa para a mentira”.


Agora que já foram apresentados as provas e argumentos científicos a respeito da identidade de gêneros e as falácias da teoria “queer”, passemos à análise da questão sob a ótica espírita.


Como já esclarecemos acima, o Espiritismo aceita tudo o que a Ciência devidamente comprova. Sendo assim, a posição espírita não poderia ser outra senão a de que as identidades de gêneros e as orientações sexuais tem os fatores biológicos como determinantes, não obstante existirem influências do meio que devem ser consideradas apenas em sua relatividade.


Ademais, com o estudo atento e profundo das obras espíritas, constatamos que os seus ensinamentos não estão em nenhum ponto em contradição com a Ciência.


Repetindo a colocação de Kardec, o Espiritismo não apenas admite as verdades provadas pela Ciência, como não se detém onde esta última para, pois que prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade.


Sendo assim, e partindo do fato que há determinações biológicas na questão de gêneros, resta saber o que comandaria todos esses arranjos biológicos, nesse contexto da evolução humana. Para o Espiritismo, a resposta está em 4 elementos: a existência do alma (ou Espírito), a sobrevivência do ser espiritual à morte física, a existência de um corpo energético do Espírito (perispírito) e a reencarnação.


Os Espíritos são os seres inteligentes que povoam o Universo, criados por Deus sempre na mesma condição, simples e ignorantes (sem conhecimento), mas com o potencial latente para atingir, por experiências e esforços próprios, o estado de plenitude, de Espíritos puros. A encarnação e as sucessivas reencarnações são oportunidades para o Espírito realizar as experiências que fomentam o seu progresso intelecto-moral. Cada Espírito irá progredir mais ou menos rapidamente, de acordo com os esforços que realizar para isso. Logo, Deus não concede privilégios a ninguém, e a ninguém considera especial em detrimento dos demais. Todos os Espíritos recebem igualmente as oportunidades e as condições de evoluir. Se estacionam no seu progresso, é simplesmente por não empreender todos os seus esforços nesse sentido.


No que diz respeito à evolução, o Espiritismo está em plena concordância com a teoria darwiniana, considerando, entretanto, que há uma causa primeira, necessária, para o Universo, em outras palavras, uma inteligência suprema, superior a tudo, que pudesse gerar um Cosmo tão perfeito, harmonioso e complexo. A essa inteligência, causa primeira do Universo, damos o nome de Deus. Além disso, a doutrina considera que, além da evolução material das espécies, há também a evolução do ser espiritual.


Allan Kardec, em excelente artigo que inseriu na Revista Espírita de janeiro de 1866, escreveu o seguinte:


“As almas ou Espíritos não tem sexo. As afeições que os unem nada tem de carnal e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque fundadas numa simpatia real e não são subordinadas às vicissitudes da matéria.


“As almas se encarnam, isto é, revestem temporariamente um envoltório carnal, para elas semelhante a uma pesada vestimenta, de que a morte as desembaraça. Esse invólucro material, pondo-as em contato com o mundo material, nesse estado elas concorrem ao progresso material do mundo que habitam; a atividade a que são obrigadas a desenvolver, seja para a conservação da vida, seja para alcançarem o bem-estar, auxilia-lhes o avanço intelectual e moral. A cada encarnação a alma chega mais desenvolvida; traz novas ideias e os conhecimentos adquiridos nas existências anteriores. Assim se efetua o progresso dos povos; os homens civilizados de hoje são os mesmos que viveram na Idade Média e nos tempos de barbárie, e que progrediram; os que viverem nos séculos futuros serão os de hoje, porém mais avançados, intelectual e moralmente.


“Os sexos só existem no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais. Mas os Espíritos, sendo criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, razão pela qual os sexos seriam inúteis no mundo espiritual.


“Os Espíritos progridem pelos trabalhos que realizam e pelas provas que devem sofrer, como o operário se aperfeiçoa em sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos variam conforme sua posição social. Devendo os Espíritos progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a sujeitar-se aos diferentes gêneros de provas. É por isso que, alternadamente, nascem ricos ou pobres, senhores ou servos, operários do pensamento ou da matéria.


“Assim se acha fundado, sobre as próprias leis da Natureza, o princípio da igualdade, pois o grande da véspera pode ser o pequeno do dia seguinte e reciprocamente. Desse princípio decorre o da fraternidade, visto que, em nossas relações sociais, reencontramos antigos conhecimentos, e no infeliz que nos estende a mão pode encontrar-se um parente ou um amigo.


“É com o mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos; aquele que foi homem poderá renascer mulher, e aquele que foi mulher poderá nascer homem, a fim de realizar os deveres de cada uma dessas posições, e sofrer-lhes as provas. A Natureza fez o sexo feminino mais fraco que o outro, porque os deveres que lhe incumbem não exigem igual força muscular e seriam até incompatíveis com a rudeza masculina. Nela a delicadeza das formas e a finura das sensações são admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos homens e às mulheres, são, pois, atribuídos deveres especiais, igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos que se completam um pelo outro.


“Sofrendo o Espírito encarnado a influência do organismo, seu caráter se modifica conforme as circunstâncias e se dobra às necessidades e exigências que lhe impõe esse mesmo organismo. Esta influência não se apaga imediatamente após a destruição do envoltório material, assim como não perde instantaneamente os gostos e hábitos terrenos. Depois, pode acontecer que o Espírito percorra uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa. Somente quando chegado a um certo grau de adiantamento e de desmaterialização é que a influência da matéria se apaga completamente e, com ela, o caráter dos sexos. Os que se nos apresentam como homens ou como mulheres, é para nos lembrar a existência em que os conhecemos.


“Se essa influência se repercute da vida corporal à vida espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual à vida corporal. Numa nova encarnação ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, será um homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado. Mudando de sexo, sob essa impressão e em sua nova encarnação, poderá conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres.”


Kardec deixa muito claro, portanto, alguns pontos que abaixo destacamos:


- os Espíritos não tem sexos específicos e podem se reencarnar em corpos masculinos ou femininos;


- as diferenças biológicas dos corpos masculinos e femininos são reais e tem uma razão de ser: oferecer implementos físicos específicos que serão usados pelo Espírito para ter experiências específicas nas suas reencarnações. Os corpos masculinos, por sua conformação e seus hormônios, favorecem experiências para o desenvolvimento de determinadas qualidades, enquanto corpos femininos, por sua forma mais delicada e hormônios, servem melhor para experiências que desenvolvam aspectos da doçura, da delicadeza, da sensibilidade, da maternidade, do acolhimento etc. Isso explicaria o “paradoxo norueguês da igualdade de gênero”.


- o que leva o Espírito a escolher se reencarnar na condição masculina ou feminina são os tipos de experiências que quer ter durante sua reencarnação. Ele analisa quais já foram as suas conquistas evolutivas, intelecto-morais, e o que ainda necessita aprender e aprimorar e, então, toma sua decisão;


- no momento da fecundação, quando o Espírito, que já se decidiu sobre o gênero que terá na Terra, se liga àquela primeira célula por meio de seu corpo espiritual, este passa a, automaticamente, comandar os processos biológicos do desenvolvimento do novo corpo físico, acionando os componentes genéticos e hormonais que produzam um organismo adequado às experiências que deverá ter na sua reencarnação;


- a homossexualidade não tem nada de anormal e é perfeitamente explicável e compreensível à luz da reencarnação e da doutrina espírita. Os conteúdos psicológicos e as impressões físicas, decorrentes de várias reencarnações seguidas dentro de uma mesma morfologia sexual (masculina ou feminina), ficariam impressos no corpo espiritual que, num novo processo reencarnatório, transferiria aquelas impressões para os componentes biológicos do novo corpo em formação, influenciando-os de tal forma a gerar determinadas alterações biológicas, conforme vimos nas pesquisas do Dr. Levay.


O Espiritismo é uma filosofia. A palavra filosofia surgiu da junção de dois termos: amigo e sabedoria. A filosofia seria, então, esse pacto de amizade, de amor, com a sabedoria. Para alcançarmos esse estado, é preciso buscarmos a verdade e entendê-la. No Evangelho de João (8:32), encontramos a assertiva de Jesus: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Por isso temos essa necessidade de conhecer e compreender tudo, para que, saindo da ignorância, encontremos os meios de nos liberar dos grilhões que nos prendem aos sofrimentos. Dessa forma, a Doutrina Espírita tem um pacto de amizade e de amor com a sabedoria e, portanto, com a verdade, e rechaça qualquer tentativa de desvirtuamento dela.


Para concluir, deixamos para reflexão as advertências de Jesus, contidas no Evangelho de Mateus (7:15-17):


“Guardai-vos dos falsos profetas, que vem a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus.”


Observemos. E concluamos...

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