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  • Júlio Zacarchenco

O suicídio é a solução?

O suicídio seria uma solução para os problemas e angústias da vida? Temos o direito de abreviar a nossa existência física? Quais as consequências do suicídio para o seu praticante na vida espiritual? O fato de o suicídio assistido ser legalizado em alguns países, isso o torna um ato moral, correto?


David Goodall, no seu aniversário de 104 anos

No último dia 10 de maio, o cientista David Goodall, de 104 anos, pôs um fim à sua própria existência física em uma clínica na Suíça, cercado pela família. Britânico de nascimento, ele fez uma campanha na Austrália, onde residia, para ser autorizado a realizar suicídio assistido. O professor e cientista não possuía nenhuma doença grave ou terminal, mas considerava que já havia vivido muito e que sua qualidade de vida estava aquém do que ele gostaria. Ele precisou viajar até a Suíça, onde as leis permitem que uma pessoa possa se matar legalmente, ao contrário da Austrália, onde o ato permanece proibido.


O que levaria alguém, que já atravessou 104 anos de vida, a decidir encerrar a própria existência?


Para os materialistas, que consideram a vida como um périplo do nascimento à falência das funções corpóreas, advindo o nada após a morte, o suicídio seria uma solução razoável para um caso como o do senhor Goodall. Afinal de contas, se o futuro além desta vida seria o nada e se estaríamos destinados, mais cedo ou mais tarde, a esse nada, no caso de um sofrimento inevitável, por que sofreríamos por mais tempo? Melhor seria abreviar o período de angústias e dores.


Para aqueles espiritualistas, que reconhecem a sobrevivência da alma à morte, com a continuidade da vida espiritual, mas que, de fato, não possuem noção clara de como é essa experiência além-túmulo e nem das consequências na outra vida de nossos atos praticados na existência física, talvez o suicídio represente a oportunidade de se chegar mais rapidamente a uma vida melhor, fugindo-se dos desgostos e vicissitudes da Terra.


Mas, teríamos o direito ao suicídio? E quais seriam, realmente, as consequências de tal ato?


Na obra “O Livro dos Espíritos”, lançada em Paris, no ano de 1857, Allan Kardec inseriu uma série de perguntas a esse respeito, com as respostas dadas pelos benfeitores espirituais (perguntas 943 e ss).


Sobre se teríamos o direito de dispor de nossa própria vida, os Espíritos superiores foram categóricos, respondendo que não, porque somente a Deus assiste esse direito, considerando o suicídio como gravíssima transgressão à lei divina. No entanto, fizeram uma distinção entre o suicídio voluntário, praticado com consciência do ato, e o involuntário, realizado, por exemplo, num surto psiquiátrico, sem consciência do que se faz. Quem se suicidasse involuntariamente, não incorreria na transgressão da lei de Deus.


Com relação àqueles que buscam o suicídio como fuga das misérias e decepções deste mundo, disseram os benfeitores: “pobres Espíritos, que não tem a coragem de suportar as misérias da existência! (...) As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados! Ai, porém, daqueles que esperam a salvação do que, na sua impiedade, chamam acaso, ou fortuna! O acaso, ou a fortuna, para me servir da linguagem deles, podem, com efeito, favorecê-los por um momento, mas para lhes fazer sentir mais tarde, cruelmente, a vacuidade dessas palavras.”


Foi esclarecido, também, que aqueles que, por seus atos, induzem, direta ou indiretamente, alguém ao suicídio, respondem, perante os códigos divinos, por homicídio.


Para os que creem que, suicidando-se, poderão mais depressa ingressar numa vida melhor, os Espíritos alertam que tal se trata de loucura, pois que somente a prática do bem pode garantir que alguém, ao desencarnar, passe a viver numa dimensão feliz; o suicídio retardaria a entrada num mundo melhor e o suicida teria de solicitar nova reencarnação na Terra, a fim de concluir a existência a que pôs termo sob o influxo da ideia falsa.


Pensando no caso do senhor Goodall, que, aos 104 anos, não possuía nenhuma doença grave ou terminal, mas considerava que já havia vivido muito e que sua qualidade de vida estava aquém do que ele gostaria, portanto, reconhecendo que ele via diante de si um fim inevitável e possivelmente doloroso, seria lícito, segundo as leis divinas, que ele abreviasse de alguns instantes ou meses, ou mesmo anos, os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte? Segundo resposta dada pelos Espíritos, o melhor teria sido que ele aguardasse o fim natural da existência. Vejamos o diálogo entre Kardec e os benfeitores espirituais, presente na pergunta de número 953 da já referida obra:


“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência. E quem poderá estar certo de que, malgrado às aparências, esse termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?”


"(pergunta de Kardec) - Concebe-se que, nas circunstâncias ordinárias, o suicídio seja condenável; mas, estamos figurando o caso em que a morte é inevitável e em que a vida só é encurtada de alguns instantes.


"(resposta) - É sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador."


"(pergunta de Kardec) - Quais, nesse caso, as consequências de tal ato?"


"(resposta) - Uma expiação proporcionada, como sempre, à gravidade da falta, de acordo com as circunstâncias."


As consequências do suicídio, para quem o pratica, variam muito. Conforme esclarecido a Allan Kardec, não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar; é o desapontamento. Mas, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam. Kardec lembra-nos, ainda, que sempre há uma grande perturbação para o Espírito que se suicida e que, em muitos casos, por existir ainda uma ligação muito forte entre o Espírito e o corpo físico, aquele pode experimentar as sensações da decomposição do envoltório físico.


Considerando tais informações, concluímos que o suicídio nunca representará a solução para os nossos problemas e angústias, sendo, ao contrário, um agravante de nossos sofrimentos, de modo que a melhor opção será sempre enfrentarmos os desafios da existência com coragem, humildade e resignação, aperfeiçoando nossa condição moral, a fim de podermos, no tempo certo, atravessar o pórtico da morte, em condições, de fato, de habitarmos um mundo melhor.

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