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  • Júlio Zacarchenco

O Espiritismo e as Pandemias

Atualizado: Set 3



No fim de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu o primeiro alerta de um novo problema sanitário, depois que autoridades chinesas notificaram casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan, surgidos no começo daquele mês.

Em 9 de janeiro, a OMS anunciava que o causador daquele mal era um novo coronavírus, denominado Covid-19. E, cerca de dois meses depois, ela declarara o alerta de pandemia no mundo.

Desde o aparecimento dos primeiros casos de contaminação na China, a humanidade tem experimentado mudanças drásticas no seu dia-a-dia, afetando a vida de todas as pessoas não apenas no aspecto físico, exterior, mas também e sobretudo no íntimo.

Ninguém com um mínimo de bom senso põe em dúvida que esta pandemia forçou-nos a olhar com mais atenção para nós mesmos.

Antes, profundamente distraídos com os elementos e situações exteriores, muitos de nós não nos interessávamos em saber o que realmente somos, qual o sentido da vida, qual o futuro do ser humano após a morte e como se preparar para esse futuro.

Mas diante da grande convulsão causada na população global pelo coronavírus, o qual expôs de forma impactante a fragilidade da existência física e de todas as situações e estruturas do mundo, que são passageiras, tornou-se imperiosa a reavaliação de nossos valores, hábitos e objetivos existenciais.

Dentro desse contexto, o que poderíamos aprender com o Espiritismo? Que conduta nos sugere a Doutrina Espírita, face a tantas informações e fatos dolorosos?

Para responder a essa dúvida, necessário que recordemos o que escreveu o codificador do Espiritismo:

“O elemento espiritual e o elemento material são os dois princípios, as duas forças vivas da Natureza, as quais se completam uma a outra e reagem incessantemente uma sobre a outra, indispensáveis ambas ao funcionamento do mecanismo do Universo.

“Da ação recíproca desses dois princípios se originam fenômenos que cada um deles, isoladamente, não tem possibilidade de explicar.

“À Ciência, propriamente dita, cabe a missão especial de estudar as leis da matéria.

“O Espiritismo tem por objeto o estudo do elemento espiritual em suas relações com o elemento material e aponta na união desses dois princípios a razão de uma imensidade de fatos até então inexplicados.

“O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da matéria: admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, não se detém onde esta última para: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade.”(1)

Conclui-se, de pronto, que todas as verdades comprovadas pela Ciência são acatadas pelo Espiritismo e isso, naturalmente, se aplica a tudo o que diz respeito à atual pandemia.

Mas Kardec também esclarece que, tendo como objeto de estudo o elemento espiritual e suas relações com a matéria, a Doutrina não se detém no campo dos efeitos (mundo material); estende suas investigações às causas remotas de todas as coisas, até chegar à gênese profunda dos nossos sofrimentos e alegrias. Nessa origem está o Espírito imortal, como sendo o construtor de sua própria ventura ou desdita.

Desde os tempos mais remotos da Civilização, encontramos o ser humano indagando o que é, de onde vem, qual o seu destino, por que sofre.

O Espiritismo, sendo Filosofia e Ciência que estuda o ser imortal e tudo o que lhe diz respeito, buscou as respostas para tais questionamentos e concluiu, pela força dos fatos e da lógica, que somos Espíritos, seres inteligentes criados por Deus na condição de simplicidade e sem conhecimentos, mas com o potencial da perfeição; que somos dotados de livre-arbítrio, o qual usamos bem ou mal, advindo, assim, de nossas escolhas e condutas efeitos positivos ou danosos, que colaboram para a construção de nossa felicidade e harmonia ou de nossos sofrimentos. Aprendemos, portanto, que a Lei de Ação e Reação (Terceira Lei de Newton), que se manifesta no campo físico, tem também a sua correspondente no campo moral/espiritual.

Do estado de simplicidade e ignorância ao de Espíritos puros, longa é a nossa jornada evolutiva e muitos os desafios e tropeços que surgem no caminho ascensional.

Segundo Allan Kardec,

“a doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à ideia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam.”(2)

De fato, os Espíritos superiores disseram à Kardec que o fim objetivado com a reencarnação é o de:

“expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?”.(3)

E que:

“a cada nova existência, o Espírito dá um passo para diante na senda do progresso. Desde que se ache limpo de todas as impurezas, não tem mais necessidade das provas da vida corporal.”(4)

Essas sucessivas reencarnações dão-se em diferentes mundos, os quais oferecem condições as mais variadas para as necessidades de aprendizagem e recuperação dos Espíritos, servindo como verdadeiras escolas e hospitais. Esses mundos são as muitas moradas na casa do Pai, conforme afirmação de Jesus (João 14:2).

A Terra é classificada como planeta de provas e expiações, portanto, habitação temporária para Espíritos inferiores, que ainda possuem em seu íntimo paixões degradantes, conflitos, culpas.

Santo Agostinho (Espírito), em instrutiva comunicação mediúnica recebida em Paris, no ano de 1862, asseverou:

“a Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à Lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito.”(5)

Fica fácil compreender, dessa maneira, que os males e dores que se abatem sobre nós na existência física não são criações de Deus, senão efeitos naturais de nossos desequilíbrios, de nossa incúria.

Por essa razão, o codificador da Doutrina esclareceu que:

“de duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.

“Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.

“Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! [...]

“Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!”(6)

Mas quando, após uma análise séria e imparcial desta nossa existência, não encontramos a causa para os nossos sofrimentos, é que ela está em reencarnações anteriores. É o que explica Kardec:

“Assim se explicam pela pluralidade das existências e pela destinação da Terra, como mundo expiatório, as anomalias que apresenta a distribuição da ventura e da desventura entre os bons e os maus neste planeta. Semelhante anomalia, contudo, só existe na aparência, porque considerada tão-só do ponto de vista da vida presente. Aquele que se elevar, pelo pensamento, de maneira a apreender toda uma série de existências, verá que a cada um é atribuída a parte que lhe compete, sem prejuízo da que lhe tocará no mundo dos Espíritos, e verá que a Justiça de Deus nunca se interrompe.

“Jamais deve o homem olvidar que se acha num mundo inferior, ao qual somente as suas imperfeições o conservam preso. A cada vicissitude, cumpre-lhe lembrar-se de que, se pertencesse a um mundo mais adiantado, isso não se daria e que só de si depende não voltar a este, trabalhando por se melhorar.”(7)

Excetuando-se os casos de Espíritos superiores que se encontram na Terra em missão – e que suportam as mais diversas dificuldades e dores não por necessidade expiatória mas para nos exemplificar a renúncia, a resignação, a coragem, a paciência etc. -, estamos nós em processos de aprendizagem, de aquisição de virtudes e de expiação de nossos desequilíbrios.

As epidemias e pandemias que, de tempos em tempos, assaltam a Humanidade terrestre fazem parte das experiências de que necessitamos para evoluir.

Essas dolorosas experiências poderiam ter sido evitadas? Sim!... se tivéssemos nos decidido pela vivência do mandamento maior da Lei de Deus, o “amai-vos uns aos outros”, como Jesus nos amou.

Poderemos minimizar os males da presente pandemia? A resposta também é afirmativa: basta que nos esforcemos para exercitar aquele mesmo mandamento da Lei Divina.

Todas as orientações dos cientistas e especialistas no assunto são fundamentais para que reduzamos os efeitos deste mal no campo físico e a moral espírita nos induz à obediência a tais recomendações científicas.

No entanto, não se detendo na análise apenas do campo material, o Espiritismo esclarece que somente com uma mudança drástica em nosso ser profundo conseguiremos erradicar a verdadeira gênese de todos os males da Humanidade: o egoísmo.

O Espírito André Luiz, pela psicografia do médium Chico Xavier, legou-nos esclarecimentos de grande relevância para a compreensão do que sofremos na atualidade. Questionado sobre se “a invasão microbiana está vinculada a causas espirituais”, respondeu ele:

“[...] as depressões criadas em nós por nós mesmos, nos domínios do abuso de nossas forças, seja adulterando as trocas vitais do cosmo orgânico pela rendição ao desequilíbrio, seja estabelecendo perturbações em prejuízo dos outros, plasmam, nos tecidos fisiopsicossomáticos que nos constituem o veículo de expressão, determinados campos de ruptura na harmonia celular.

“Verificada a disfunção, toda a zona atingida pelo desajustamento se torna passível de invasão microbiana, qual praça desguarnecida, porque as sentinelas naturais não dispõem de bases necessárias à ação regeneradora que lhes compete, permanecendo, muitas vezes, em derredor do ponto lesado, buscando delimitar-lhe a presença ou jugular-lhe a expansão.

“Desarticulado, pois, o trabalho sinérgico das células nesse ou naquele tecido, aí se interpõem as unidades mórbidas [...]”.

“É que, geralmente, quase todos eles [processos morbosos] surgem como fenômenos secundários sobre as zonas de predisposição enfermiça que formamos em nosso próprio corpo, pelo desequilíbrio de nossas forças mentais a gerarem rupturas ou soluções de continuidade nos pontos de interação entre o corpo espiritual e o veículo físico, pelas quais se insinua o assalto microbiano a que sejamos mais particularmente inclinados pela natureza de nossas contas cármicas.

“Consolidado o ataque, pela brecha de nossa vulnerabilidade, aparecem as moléstias sintomáticas ou assintomáticas, estabilizando-se ou irradiando-se, conforme as disposições da própria mente, que trabalha ou não para refazer a defensiva orgânica em supremo esforço de reajuste, ou que, por automatismo, admite ou recusa, segundo a posição em que se encontra no princípio de causa e efeito, a intromissão desse ou daquele fator patogênico, destinado a expungir dela, em forma de sofrimento, os resíduos do mal, correspondentes ao sofrimento por ela implantado na vida ou no corpo dos semelhantes.

“Não será lícito, porém, esquecer que o bem constante gera o bem constante e, que, mantida a nossa movimentação infatigável no bem, todo o mal por nós amontoado se atenua, gradativamente, desaparecendo ao impacto das vibrações de auxílio, nascidas, a nosso favor, em todos aqueles aos quais dirijamos a mensagem de entendimento e amor puro, sem necessidade expressa de recorrermos ao concurso da enfermidade para eliminar os resquícios de treva que, eventualmente, se nos incorporem, ainda, ao fundo mental.

“Amparo aos outros cria amparo a nós próprios, motivo por que os princípios de Jesus, desterrando de nós animalidade e orgulho, vaidade e cobiça, crueldade e avareza, e exortando-nos à simplicidade e à humildade, à fraternidade sem limites e ao perdão incondicional, estabelecem, quando observados, a imunologia perfeita em nossa vida interior, fortalecendo-nos o poder da mente na autodefensiva contra todos os elementos destruidores e degradantes que nos cercam e articulando-nos as possibilidades imprescindíveis à evolução para Deus”.(8)

Bibliografia:

1. KARDEC, A. Obras Póstumas. p. 258-259. 18ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1981.

2. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Pergunta 171. 82ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

3. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Pergunta 167. 82ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

4. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Pergunta 168. 82ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

5. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.III. itens 13,15. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

6. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.V. item 4. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

7. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.V. item 7. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

8. LUIZ, A. Evolução em Dois Mundos. p.217-219. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1989.

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