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  • Júlio Zacarchenco

No Resgate do Cristianismo Redivivo.



O filósofo inglês Thomas Hobbes, em sua obra “Do Cidadão”, expressa a sua conclusão a respeito do caráter da criatura humana afirmando que “o homem é o lobo do homem”, isto é, este, por sua natureza ainda instintiva e predadora, acaba sendo o maior inimigo dos seus semelhantes.

Se é certo que a generalização desse veredito não é verdadeira, de modo nenhum poderíamos desconsiderar a existência de número significativo de pessoas na Terra que se comportam como tais.

Como entender essa situação lastimável?

Allan Kardec, com base nos ensinamentos dos Espíritos superiores, esclarece-nos que “as muitas moradas na casa do Pai” são os incontáveis mundos espalhados no Universo, que servem de moradia temporária aos Espíritos em processo de evolução. A Terra é classificada como um planeta de expiações e provas. Para entendermos melhor o que isso significa, leiamos o que nos diz o Espírito Santo Agostinho:

“A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à Lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência.” (1)

Se a perversidade é uma característica frequente nas almas que habitam o nosso orbe, logo, não estaria totalmente equivocado o filósofo inglês.

Esse impulso predador ancestral permanece até os dias atuais no comportamento de uma imensa quantidade de pessoas. Não nos detemos apenas em observar, analisar os fatos e discernir as questões; acusamos e, na maioria dos casos, nosso libelo apresenta distorções dos fatos; julgamos, mas não apenas isso, julgamos de forma parcial, apaixonada, desconsiderando as circunstâncias assim como os argumentos e explicações do acusado; condenamos e sem nenhum interesse pela verdadeira justiça; por fim, queremos executar a sentença, não raro injusta, com ouvidos moucos para a misericórdia.

Porém, há cerca de dois mil anos, Jesus, o Cristo de Deus, propôs-nos uma conduta diferente, de modo que nos libertássemos do primitivismo ancestral, dos instintos inferiores, e alcançássemos patamares superiores da evolução anímica.

Foram várias as lições que Ele nos legou a esse respeito. Recordemos o episódio em que os discípulos enciumados criam um certo mal-estar no grupo, sendo, imediatamente, admoestados pelo Mestre:

“Ouvindo isso, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. Jesus, porém, chamando-os, disse: ‘Sabeis que os príncipes dos pagãos são prepotentes com eles e que também os grandes abusam do seu poder. Não será assim convosco. Mas quem quiser ser grande entre vós será vosso criado, e quem quiser ser o primeiro entre vós será o vosso escravo, tal como o Filho da Humanidade não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate por muitos.’” (Mateus, 20:24-28). (2)

Os julgamentos precipitados e injustos, assim como a hipocrisia dos acusadores, não ficaram sem a devida orientação do Senhor, como vemos a seguir:

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois pela sentença com que julgardes sereis julgados; e pela medida com que medirdes sereis medidos. Por que miras o cisco no olho do teu irmão e não te dás conta da trave que está no teu? Ou como dirás ao teu irmão: ‘Deixa que eu te tire o cisco do olho?’ E eis a trave no teu próprio olho. Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás melhor para tirares o cisco do olho do teu irmão.” (Mateus, 7:1-5) (3)

Quando Jesus já estava prestes a deixar a vida física e se despedia do colégio apostólico, estabeleceu a marca primordial que distinguiria os seus verdadeiros discípulos, em todos os tempos:

“Filhinhos, já pequeno é o tempo que estou convosco. Procurar-me-eis e, tal como eu disse aos judeus que para onde eu vou vós não podeis ir, também a vós o digo agora. Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros. Nisso se reconhecerão todos que sois meus discípulos, se amor tiverdes entre vós.” (João, 13:33-35) (4)

No entanto, mal Jesus desencarnara e as dificuldades de convivência e entendimento entre os seus seguidores começaram a se manifestar de forma mais acentuada. Na medida que a mensagem da Boa Nova se espalhava e o número de comunidades cristãs crescia, as discordâncias e rivalidades também se multiplicavam.

Por essa razão, o apóstolo Paulo, escrevendo à igreja de Corinto, fez uma solicitação especial, discorrendo sobre os problemas das dissensões, rivalidades, julgamentos, invejas, orgulho, soberba, e convidando os cristãos a seguirem o seu exemplo de renúncias e sacrifícios.

“Peço-vos, irmãos, através do nome do Nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos o mesmo e que não existam entre vós divisões; concertai-vos no mesmo pensamento e na mesma opinião. É que me foi tornado claro a vosso respeito, meus irmãos, por intermédio dos de Cloe, que existem discórdias entre vós.” (1Coríntios, 1:10-11) (5)

E ele prossegue com outros esclarecimentos e advertências:

“Quanto a mim, irmãos, não pude vos falar como a pessoas espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. Dei-vos de beber leite e não alimento sólido, pois ainda não o conseguíeis comer. Nem mesmo agora conseguis, porque ainda sois carnais. Pois se entre vós há inveja e discórdia, não é porque sois carnais e procedeis de modo humano? Quando um disser ‘eu sou de Paulo’; e outro ‘eu sou de Apolo’, não estais a proceder como humanos? Então quem é Apolo? Quem é Paulo? Servos, por cujo intermédio acreditastes; a cada um o Senhor deu a sua tarefa. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus vos fez crescer. Assim, nem o que planta é algo, nem o que rega; mas só Deus, que faz crescer.” (1Coríntios, 3:1-7) (6)

“Por conseguinte, não julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, que iluminará as coisas escondidas da escuridão e mostrará os desígnios dos corações. E então o louvor acontecerá para cada um da parte de Deus. Essas coisas, irmãos, eu apliquei a mim e a Apolo por vossa causa, para que em nós aprendais a ‘não ir além do que está escrito’, e para que ninguém fique inchado, tomando o partido de um contra o outro. Pois quem te diferencia? Que tens tu que não tenhas recebido? E, se recebeste, por que te vanglorias, como se não tivesses recebido? [...] Até este momento, tivemos fome, sentimos sede e andamos nus; somos esmurrados, não temos abrigo e nos cansamos de trabalhar com as nossas próprias mãos. Insultados, abençoamos; perseguidos, aguentamos; caluniados, consolamos. Nos tornamos, até o presente, como a imundície do mundo e a escória de todas as coisas. [...]Peço-vos, então, que sejais meus imitadores. Foi por isso que vos enviei Timóteo, meu filho amado e fiel no Senhor; ele vos recordará os meus caminhos em Cristo, tais como os ensino por toda a parte, em toda a congregação.” (1Coríntios, 4:5-8,11-13,16-17). (7)

Os séculos foram se sucedendo e os ensinamentos de Jesus foram sendo esquecidos ou interpretados incorretamente, o que, aliás, Ele houvera previsto. Por isso, prometeu à humanidade outro consolador: o Espírito de Verdade, para ensinar coisas novas e para relembrar o que já tinha dito.

Surgiu, assim, no século XIX, o Espiritismo, o Consolador prometido por Jesus, apresentando-nos novos detalhes e ângulos da Lei Divina, mas também fazendo-nos recordar todas as sagradas lições do Mestre Nazareno.

A respeito da caridade, assim se expressou Allan Kardec:

“Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinos, ele aponta essas duas virtudes como sendo as que conduzem à eterna felicidade: Bem-aventurados, disse, os pobres de espírito, isto é, os humildes, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que têm puro o coração; bem-aventurados os que são brandos e pacíficos; bem-aventurados os que são misericordiosos; amai o vosso próximo como a vós mesmos; fazei aos outros o que quereríeis vos fizessem; amai os vossos inimigos; perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; praticai o bem sem ostentação; julgai-vos a vós mesmos, antes de julgardes os outros. Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar e o de que dá, ele próprio, o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não se cansa de combater. E não se limita a recomendar a caridade; põe-na claramente e em termos explícitos como condição absoluta da felicidade futura.” (8)

Para que não houvesse dúvidas quanto ao entendimento do que seria a caridade, o codificador do Espiritismo questionou os Espíritos superiores a respeito do verdadeiro sentido dessa palavra, como a entendia Jesus, recebendo deles a resposta a seguir:

“Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” (9)

No entanto, apesar de toda a clareza da Doutrina Espírita, nem todos os seus adeptos vivenciam os seus postulados, aparentando muito mais do que sendo, realmente, cristãos. Sendo assim, como saber, ou ainda, por que sinais poderíamos reconhecer os espíritas verdadeiros, os que estariam no bom caminho, se há tantos que se transviaram? Para elucidar o assunto, Kardec recorreu, como de hábito, à sabedoria dos Bons Espíritos. A orientação foi clara:

“Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. (Erasto) (10)

O Espírito Erasto, nessa comunicação, diz que Deus quer o triunfo de Sua lei e dará vitória aos que a seguem. Qual seria essa lei? A resposta está na afirmação de Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração e em toda a tua alma e em todo o teu entendimento. Este é o grande, o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos está suspensa toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:37-40). (11)

Por isso, não se justifica usar a “defesa da Verdade” como pretexto para acusações escandalosas, desmoralização e condenação de companheiros, provocando-se tumultos injustificáveis na obra do Cristo e ferindo-se a lei divina.

Habitantes de um mundo de expiações e de provas, somos, a grande maioria, Espíritos inferiores, que trazemos conflitos íntimos, culpas, paixões, de modo que deslizes e quedas ainda fazem parte de nossas experiências evolutivas. Nesse contexto, a caridade nos solicita que nos ajudemos uns aos outros, com apoio mútuo, esclarecimentos, recomendações e até mesmo admoestações, desde que sejam sinceras, úteis e carregadas de misericórdia e indulgência.

É isto o que lemos nos textos de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo sobre a misericórdia:

“Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo? Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido.

“Será repreensível notarem-se as imperfeições dos outros, quando daí nenhum proveito possa resultar para eles, uma vez que não sejam divulgadas? Tudo depende da intenção. Decerto, a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe. Fora mesmo inconveniente ver em toda a parte só o bem. Semelhante ilusão prejudicaria o progresso. O erro está no fazer-se que a observação redunde em detrimento do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível seria fazê-lo alguém apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, estendendo sobre o mal um véu, para que o público não o veja, aquele que note os defeitos do próximo o faça em seu proveito pessoal, isto é, para se exercitar em evitar o que reprova nos outros. Essa observação, em suma, não é proveitosa ao moralista? Como pintaria ele os defeitos humanos, se não estudasse os modelos?

“Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem? É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se torna apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.” (São Luís). (12)

Como vemos, mesmo quando o dever nos induz a repreender o próximo, teremos de usar o máximo de cuidado para esse ato, de modo que a nossa ação não fira nem prejudique ninguém.

A respeito desse cuidado, no mesmo capítulo que estuda a misericórdia encontramos importante lição:

“Espíritas, queremos falar-vos hoje da indulgência, sentimento doce e fraternal que todo homem deve alimentar para com seus irmãos, mas do qual bem poucos fazem uso. A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los. Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria, não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidenciam com pérfida intenção. A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis mais do que o culpado. Ó homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos? Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! tereis, quiçá, cometido faltas mais graves. Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita.” (José) (13)

Nesse mesmo sentido, outra mensagem espiritual nos alerta sobre a necessidade de benevolência, de caridade:

“O verdadeiro Espiritismo tem por divisa benevolência e caridade. Não admite qualquer rivalidade, a não ser a do bem que todos podem fazer. Todos os grupos que inscreverem essa divisa em suas bandeiras estenderão uns aos outros as mãos, como bons vizinhos, que não são menos amigos pelo fato de não habitarem a mesma casa. Os que pretendam que os seus guias são Espíritos melhores que os dos outros deverão prová-lo, mostrando melhores sentimentos. Haja, pois, luta entre eles, mas luta de grandeza d’alma, de abnegação, de bondade e de humildade. O que atirar pedra a outro provará, por esse simples fato, que se acha influenciado por maus Espíritos. A natureza dos sentimentos recíprocos que dois homens manifestem é a pedra de toque para se conhecer a natureza dos Espíritos que os assistem.” (Fénelon) (14)

Notamos, portanto, que para o verdadeiro espírita, a mensagem de Jesus prossegue como roteiro inigualável e necessário para a sua autoiluminação. Discernir, sim; acusar, julgar e condenar, não! Revelar o mal praticado por outrem apenas quando realmente necessário para o bem coletivo e, ainda assim, cumprindo-se todos os requisitos exigidos pela caridade: discrição, compaixão, indulgência, misericórdia, benevolência etc. Viver a legítima fraternidade. Eis alguns dos caracteres morais do bom espiritista.

Joanna de Ângelis, a nobre benfeitora espiritual que vem servindo a Jesus, fielmente, há tantos séculos, discorre a respeito das nossas sombras interiores que nos induzem às contendas, perseguições, maledicências, afirmando o seguinte:

“Hábeis na arte de dissimular as desditas interiores, especializavam-se em desvelar nos outros as torpezas morais que os infelicitavam e não tinham coragem de enfrentar. É sempre esse o mecanismo oculto que tipifica o acusador contumaz, o justiçador dos outros, o vigia dos deslizes das demais pessoas. Sentindo-se falidos interiormente por não poderem superar as atrações morbosas da personalidade enferma, revestem-se de puritanismo e de falsa sabedoria, facultando-se direitos que se atribuem, e tornando-se impiedosos perseguidores das criaturas sobre as quais projetam aquilo que detestam em si próprios. (...) Ainda permanece essa conduta soez em todos os segmentos da sociedade, particularmente nos grupamentos religiosos, nos quais, aqueles que se sentem incapazes de crescer, por acomodação mental ou incapacidade moral, tornam-se agudos vigias dos irmãos que os ultrapassam e não merecem perdão, por estarem libertando-se da sombra que eles ainda sequer identificaram... Detalhistas e hábeis na faculdade de confundir, esmeram-se na apresentação externa a que dão excessivo valor, porque se sentem inferiores e pecaminosos, julgando com aspereza e rancor todos quantos os superam em quaisquer valores éticos, morais, espirituais, culturais, de abnegação e beleza.” (15)

Emmanuel, outro fiel discípulo de Jesus, desde o primeiro século do Cristianismo, recorda-nos, com mestria, os ensinamentos de Nosso Senhor:

“ ‘Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra’- é a sentença que deveria lembrar, sempre, a nossa situação comum de Espíritos decaídos, para não condenar esse ou aquele dos nossos semelhantes. ‘Vai e não peques mais’ – deve ser a nossa norma de conduta dentro do próprio coração, afastando-se a erva do mal que nele viceje. [...] Individualmente, porém, busquemos aprender que se podemos ‘julgar’ alguma coisa, julguemo-nos, sempre, em primeiro lugar, como o irmão mais próximo daquele a quem se atribui um crime ou uma falta, a fim de estarmos acordes com aquele que é a Luz dos nossos corações. Nas horas comuns da existência, procuremos a luz evangélica para analisar o erro e a verdade, discernir o bem e o mal; todavia, no instante dos julgamentos definitivos, entreguemos os processos a Deus, que, antes de nós, saberá sempre o melhor caminho da regeneração dos seus filhos transviados.” (16)

Aos espíritas não faltou nem mesmo a firme advertência de O Espírito de Verdade, que presidiu o advento do Espiritismo e que se expressou nos seguintes termos:

“Aproxima-se o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade! Seus dias de trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado. Ditosos os que hajam dito a seus irmãos: ‘Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra’, porquanto o Senhor lhes dirá: ‘Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!’ Mas, ai daqueles que, por efeito das suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, pois a tempestade virá e eles serão levados no turbilhão! Clamarão: ‘Graça! graça!’ O Senhor, porém, lhes dirá: ‘Como implorais graças, vós que não tivestes piedade dos vossos irmãos e que vos negastes a estender-lhes as mãos, que esmagastes o fraco, em vez de o amparardes? Como suplicais graças, vós que buscastes a vossa recompensa nos gozos da Terra e na satisfação do vosso orgulho? Já recebestes a vossa recompensa, tal qual a quisestes. Nada mais vos cabe pedir; as recompensas celestes são para os que não tenham buscado as recompensas da Terra.’” (17)

E, para concluir, não poderíamos deixar de mencionar as sábias palavras do médium Chico Xavier, a fim de que nós, que adotamos o Espiritismo como norma de vida, nelas meditemos e façamos um maior esforço para acatar este doce apelo:

“Se eu fosse alguém, se eu tivesse influência, se eu pudesse realizar alguma coisa em benefício da comunidade e seu tivesse a menor autoridade para fazer isto, eu apenas repetiria, para mim mesmo e para todos os nossos irmãos em humanidade, de todas as terras e de todos os idiomas, aquelas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: ‘amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei’. Porque é amor com esquecimento de si mesmo, porque é amor nada pedindo para si; o “amai-vos uns aos outros” foi superado pelo ‘amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei’. Amar alguém ou alguma causa sem pedir nada, sem esperar o pagamento nem mesmo da compreensão da inteligência do próximo, então, é trabalhar por uma humanidade mais feliz, por um mundo melhor, pela extinção das guerras e pelo incentivo do progresso em bases morais convenientes, para que nós todos estejamos no melhor lugar possível que possamos ocupar no campo da vida humana, servindo ao Pai, ao Criador, a Nosso Senhor Jesus Cristo e a todos os princípios cristãos ou mesmo aos princípios mais nobres de outras religiões, para que, com o respeito mútuo, possamos vencer todas as barreiras e amar como o amor deve ser consagrado entre nós...” (18)


(Júlio Zacarchenco)


Bibliografia:


1. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.III. item 15. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

2. BÍBLIA. N.T. Mateus. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Os Quatro Evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

3. BÍBLIA. N.T. Mateus. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Os Quatro Evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

4. BÍBLIA. N.T. João. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Os Quatro Evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

5. BÍBLIA. N.T. Epístolas. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

6. BÍBLIA. N.T. Epístolas. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

7. BÍBLIA. N.T. Epístolas. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

8. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.XV. item 3. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

9. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Pergunta 886. 82ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

10. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.XX. item 4. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

11. BÍBLIA. N.T. Mateus. In BÍBLIA. Português. Novo testamento. Os Quatro Evangelhos. Tradução de Frederico Lourenço. 1ª.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

12. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.X. itens 19-21. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

13. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.X. item 16. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

14. KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. cap.XXXI. item XXII. 80ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2012.

15. DE ÂNGELIS, J. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. Psicografia de Divaldo Franco. p.83-84. 2ª.ed. Salvador: LEAL, 2000.

16. EMMANUEL. O Consolador. Psicografia de Francisco C. Xavier. p.56-57. 28ª. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

17. KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap.XX. item 5. 130ª. ed. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

18. CHICO Xavier Inédito – De Pedro Leopoldo a Uberaba. Direção de Oceano Vieira de Melo e outros. São Paulo: Versátil Home Video, 2007. 2 DVD (300min.).

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