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  • Júlio Zacarchenco

Feliz Ano Novo!



No ano de 1862, Allan Kardec publicou na edição de fevereiro da “Revista Espírita” um artigo intitulado “Votos de Boas-Festas”, no qual incluiu o texto da sua carta-resposta à missiva que lhe dirigira os espíritas da cidade de Lyon (França).


Nessa carta-resposta, atendendo ao pedido dos espiritistas lioneses, apresentou algumas reflexões e conselhos sobre o Espiritismo e o movimento espírita nascente, entres os quais destacamos a advertência que segue:


“[...] Devo ainda vos chamar a atenção para outra tática de nossos adversários: a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua competência e que poderiam, com toda razão, despertar susceptibilidades e desconfianças. Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa. Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural. Trabalhando pelo progresso moral, assentareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, deixando a Deus o cuidado de fazer que as coisas cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que ainda é jovem, mas que amadurece depressa, deveis opor uma firmeza inabalável aos que buscarem vos arrastar por um caminho perigoso.” (1)


Quando nos defrontamos com esses sábios e prudentes conselhos do codificador, damo-nos conta que boa parte do movimento espírita os negligenciou, deixando em segundo, terceiro ou, talvez, último plano o objetivo essencial e verdadeiro do Espiritismo: a moral!


Os espíritas e centros espíritas têm se desviado desse fim basilar para se imiscuírem em questões que em vez de esclarecerem e elevarem as almas mais as confundem, agitam e perturbam.


Por toda parte, enxameiam pessoas crucificadas por dores morais acerbas, corações despedaçados por ilusões, criaturas mergulhadas em solidão, vítimas da depressão, suicidas em potencial... E os espíritas e núcleos espíritas devem focar todos os seus esforços e realizações no atendimento eficaz a eles, não havendo tempo a perder com quaisquer outras questões completamente secundárias e que não são da alçada do Espiritismo.


Além do desvio de finalidade, Kardec apresenta outro problema muito sério que pode ser fatal para as atividades espíritas, dizendo assim:


“[...] O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como destroem os povos e a sociedade em geral. Lede a História e vereis que os povos sucumbem sob a opressão desses dois mortais inimigos da felicidade dos homens. Quando se apoiarem nas bases da caridade, serão indissolúveis, porque estarão em paz entre si e com eles próprios, cada um respeitando os direitos e os bens dos vizinhos. Eis a era nova predita, da qual o Espiritismo é o precursor, e para a qual todo espírita deve trabalhar, cada um em sua esfera de atividade. É uma tarefa que lhes compete e da qual serão recompensados conforme a maneira por que a tenham realizado, pois Deus saberá distinguir os que, no Espiritismo, não buscaram senão a sua satisfação pessoal, daqueles que ao mesmo tempo trabalharam pela felicidade de seus irmãos.” (2)


Egoísmo e orgulho. Espíritas que apenas realizam as atividades para a sua satisfação pessoal. Kardec já havia identificado esse tipo de conduta no movimento espírita nascente. Na medida que este cresceu, também aumentou o número de espíritas desse naipe. Não podem ser considerados verdadeiros espíritas, naturalmente.

Ao final de sua carta, o codificador pede licença para expor um fato muito interessante, ocorrido numa cidadezinha da França, com o qual exalta a esperança no futuro, na era nova, que será marcada pela verdadeira caridade, a ser exercida em toda parte da Terra, por todos os seus habitantes. Eis o que ele narra:


“[...] Num Departamento vizinho de Paris existe uma pequena cidade onde o Espiritismo penetrou apenas há seis meses. Em poucas semanas tomou um desenvolvimento considerável; uma oposição formidável foi logo organizada contra os seus partidários, ameaçando até mesmo os seus interesses privados. Eles enfrentaram tudo com uma coragem e um desinteresse dignos dos maiores elogios; entregaram-se à Providência e a Providência não lhes faltou. Essa cidade conta uma população operária numerosa, em cujo meio as ideias espíritas, graças à oposição que fizeram, manifestam-se rapidamente. Ora, um fato digno de nota é que as mulheres e as jovens, em vez de aguardarem os habituais presentes do Ano-Novo, preferiram adquirir as obras necessárias à sua instrução, de modo que, só para essa cidade, encarregou-se um livreiro de as expedir às centenas. Não é prodigioso ver simples operários reservarem suas economias para comprar livros de moral e de filosofia, em lugar de romances e bugigangas? homens preferindo esta leitura às alegrias ruidosas e degradantes dos cabarés? Ah! é que aqueles homens e aquelas mulheres, sofredores como vós, agora compreendem que não é aqui que se realiza a sua sorte; ergue-se a cortina e eles entreveem os esplêndidos horizontes do futuro. Esta cidadezinha é Chauny, no Departamento do Aisne. Novos filhos na grande família, eles vos saúdam, companheiros de Lyon, como seus irmãos mais velhos, formando, desde agora, um dos elos da cadeia espiritual que já une Paris, Lyon, Metz, Sens, Bordeaux e outras, e que em breve ligará todas as cidades do mundo num sentimento de mútua confraternidade; porque em toda parte o Espiritismo lançou sementes fecundas e seus filhos se dão as mãos por cima das barreiras dos preconceitos de seitas, castas e nacionalidades. Vosso dedicado irmão e amigo, Allan Kardec.” (3)


Espíritas irmãos, que no novo ano que o Senhor nos concedeu possamos fortalecer nossa fé e exercitar a caridade real, o quanto pudermos, sem nenhum outro móvel senão o Amor uns pelos outros que Jesus nos recomendou.


Feliz 2020 e muita paz!


Referências Bibliográficas:

1. KARDEC, Allan. Votos de Boas-Festas. Revista Espírita, Paris: ano V, no 2, fev.1862, tradução de Evandro Noleto Bezerra, ed. FEB.

2. KARDEC, Allan. op.cit.

3. KARDEC, Allan. op.cit.

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