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  • Júlio Zacarchenco

Espírita, você realmente conhece o Espiritismo?

Atualizado: 21 de Ago de 2019


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Essa é uma questão que pode soar estranha para aqueles que desconhecem o que se passa no movimento espírita. Como assim!?...alguém que se diz adepto e praticante da doutrina, não conhece o seu conteúdo? Pois é... A realidade, infelizmente, é bem essa.


Quando se pergunta a respeito do eminente Hippolyte Léon Denizard Rivail, que foi quem codificou a doutrina, muitos afirmam que desconhecem tal nome. Mas, vá lá... o professor Rivail usou um pseudônimo para assinar as obras doutrinárias: Allan Kardec. Então, talvez fosse essa a razão de muitos espíritas não saberem quem foi Hippolyte; estariam acostumados com o seu heterônimo. No entanto, um número considerável também diz não saber quem foi Kardec. A propósito, a opção pelo uso de um pseudônimo foi motivada pelo fato de que o codificador não se considerava o real autor daquelas obras, mas sim os Espíritos superiores, de modo que, na impossibilidade de registrá-las com aquela autoria, preferiu usar um nome fictício, que ninguém conhecia, já que o seu era muito difundido e respeitado em grande parte da Europa, como grande pedagogo e livre-pensador. Além disso, o professor Rivail queria que a mensagem prosperasse por sua própria força e importância e não por conta da fama que ele possuía. Considerando essas ponderações, concluímos que o mais importante, de fato, é o conhecimento da doutrina em si. Porém, não todos, mas uma grande parte dos espíritas nunca leu as obras da codificação, nem mesmo conhece os seus postulados básicos. E é nesse ponto que as coisas ficam muito complicadas.


Esses espíritas desconhecedores do Espiritismo são não apenas aqueles que se dizem meros simpatizantes da doutrina ou frequentadores eventuais dos centros espíritas, são também, muitos deles, membros ativos nas atividades dos inúmeros grupos espalhados pelo Brasil e exterior (dirigentes, palestrantes, passistas, médiuns, coordenadores de cursos, evangelizadores etc).


Resta a dúvida: como é possível alguém que não conhece os fundamentos do Espiritismo ensinar doutrina espírita para os outros, ou, ainda, participar das práticas espíritas desconhecendo a doutrina? Isso nos remete a uma parábola contada por Jesus, na qual ele afirma: “Pode porventura um cego guiar outro cego? não cairão ambos na cova?” (Evangelho de Lucas, 6:39).


É evidente que o Espiritismo corre riscos seríssimos com essa triste realidade do movimento espírita. O Cristianismo foi profundamente adulterado por descuido e ação dos próprios cristãos. Consciente do estágio psicológico ainda infantil e da inferioridade espiritual da Humanidade daquela época e dos séculos seguintes, prevendo tais ocorrências, Nosso Senhor prometeu que, oportunamente, chegaria até nós a mensagem do Consolador, trazida pelo Espírito de Verdade, a fim de que nos fossem dados ensinamentos novos, mas também recordadas as lições do Cristo em sua pureza (Evangelho de João, 14). Esse Consolador é o Espiritismo, que surgiu na França, no século XIX.


Abaixo transcrevemos uma excelente entrevista concedida pela médium espírita Yvonne do Amaral Pereira, no ano de 1978, na qual ela nos alerta sobre esse grave problema que temos enfrentado. E, ao que nos parece, de lá para cá, ele só tem piorado.


Um dos fatos destacados por dona Yvonne é o de dirigentes e outros trabalhadores espíritas que lhe escreviam, pedindo orientações sobre como realizar atividades espíritas, sobre como atuar na mediunidade etc., demonstrando o seu total desconhecimento das obras da codificação e outras clássicas, que contêm todos os esclarecimentos de que necessitamos para a correta e segura realização de tais práticas. Com isso, vivem em busca de médiuns ou pessoas que consideram “doutas” em Espiritismo, para lhes ensinar, correndo o risco de receberem informações ou esclarecimentos que nem sempre corresponderão à verdade.


Outro ponto enfocado na entrevista refere-se ao mercado editorial de livros espíritas, que cresceu vertiginosamente nas últimas décadas. A princípio, isso poderia ser considerado positivo. Entretanto, muitos autores e editoras, na contramão do que ensina o Espiritismo, publicam quaisquer obras, mesmo as de qualidade e conteúdos duvidosos, na busca de lucros e fama.


Os leitores espíritas, que não conhecem os fundamentos básicos da doutrina, por nunca terem lido ou não terem entendido as obras da codificação, acabam por aceitar muitas inverdades e fantasias, que vão, de pouco a pouco, comprometendo a pureza doutrinária, uma vez que tais conteúdos têm sido, muito indevidamente, incorporados nas atividades dos centros espíritas.


Nesse particular, os núcleos espiritistas possuem grande responsabilidade, porque têm deixado de lado o estudo sério das obras de Allan Kardec, para se aventurarem em estudos outros que, não raro, são estranhos à própria doutrina.


O dever de todo centro espírita é propiciar a oportunidade para que seus frequentadores possam conhecer corretamente a mensagem contida nas obras básicas.


Recordamos um fato de grande valor para as nossas reflexões: dona Ana, a mãe do médium espírita Divaldo Franco, era analfabeta, mas desejava conhecer a doutrina. Divaldo, então, passou a ler para ela todas as obras da codificação, tomando o cuidado de explicar-lhe o sentido das palavras e passagens que ela não entendia.


Há um estória que ouvimos, certa vez, atribuída à Chico Xavier, cuja autenticidade não podemos confirmar, mas cujo teor merece nossa atenção: um amigo do médium mineiro teria feito-lhe uma visita e, durante a conversa, mencionou que estava na tarefa de divulgação doutrinária por meio das palestras, chegando a narrar resumidamente uma de suas preleções, e aguardando que Chico comentasse algo. Depois de alguns instantes, o médium, possivelmente inspirado pelos benfeitores espirituais, teria dito que o conteúdo estava bom, mas que faltava doutrina nela, e que o amigo deveria sempre mencionar os ensinos das obras de Kardec, pelo menos algumas vezes, em todas as suas palestras, porque, se não, elas poderiam ser muito interessantes, e até edificantes, mas não seriam espíritas!


O livro “Memórias de um suicida”, psicografado por dona Yvonne Pereira, e que, segundo afirmara o Espírito André Luiz, pela mediunidade de Chico Xavier, seria a maior obra mediúnica daquele século, demorou trinta anos para ser publicado. Somente depois que a história ditada mediunicamente pelo famoso autor português Camilo Castelo Branco recebeu o devido tratamento doutrinário, por Léon Denis, é que ela foi aceita e publicada pela Federação Espírita Brasileira.


De fato, muitos livros e palestras classificados como espíritas, não passam de trabalhos de autoajuda, completamente desprovidos de conteúdo doutrinário. Alguns chegam a ter algum valor, mas não são, de fato, espíritas.


Todas as mensagens edificantes devem ser divulgadas, inclusive o Espiritismo. Se os grupos espíritas passam a divulgar outros conteúdos que não o espírita, é claro que isso se constitui desvio de finalidade dessas instituições. Há momento e lugar para tudo. E centro espírita é lugar de doutrina espírita. É uma questão de coerência.


Todos os trabalhadores do movimento espírita devem se conscientizar da elevada e grave responsabilidade que trazem consigo. As mensagens dos Espíritos nobres, sob a coordenação do Cristo, foram cuidadosamente organizadas por Allan Kardec, que nos legou esse código de ensinamentos celestes, o Espiritismo. Que não conspurquemos essa obra, com nossas interferências pessoais, mas que levemo-la adiante, para todos os corações, tal qual ela nos foi outorgada, a fim de que ela cumpra com a sua sagrada função: “restaurar o Evangelho de Jesus para as criaturas, clarificar o pensamento filosófico da Humanidade e ajudar a Ciência”, consolando, esclarecendo e soerguendo as almas cansadas e sofridas.


Agora, leiamos, com atenção, os esclarecimentos de dona Yvonne Pereira, em entrevista concedida a Danilo Carvalho Villela, em 12 de março de 1978.


(Entrevistador): - “O movimento espírita acha-se em acelerado processo de expansão. Os livros se multiplicam, em edições cada vez maiores, que logo se esgotam, exigindo reedições, e os centros espíritas surgem em toda parte, atestando o interesse crescente despertado pelo espiritismo em nosso país. Esse crescimento quantitativo põe em risco a pureza doutrinária do espiritismo? A exemplo do que ocorreu no passado, com outros movimentos religiosos, o aumento do número de seguidores poderia vir a ocasionar o desvirtuamento do trabalho espírita?”


(Yvonne Pereira): - “O movimento quantitativo já pôs em risco a pureza doutrinária do espiritismo. Vendem-se, com efeito, muitos livros, mas os conhecimentos doutrinários continuam diminutos. A grande massa dos espíritas desconhece os princípios do espiritismo. Lê os livros, é verdade, mas confessa que nada entende, principalmente os de base, de Allan Kardec, que são considerados, por muitos, ultrapassados. Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano e outros luminares do espiritismo, de primeira categoria, seguidores de Allan Kardec, são desconhecidos. Existe fanática predileção pela obra mediúnica, a qual, se é autêntica, representa um excelente subsídio para as obras fundamentais. Infelizmente, nem sempre assim é, e o que vemos, em grande parte do movimento espírita, é a ameaça de um “neocatolicismo”, se a misericórdia de Deus não nos socorrer. Esse fenômeno de deturpação das coisas santas tem sucedido no seio de todas as filosofias religiosas. Aconteceu com o próprio cristianismo, o qual, a partir do 3º. século, começou a ser mesclado com impurezas doutrinárias. E estou autorizada a dizer que acontece o mesmo com o espiritismo, porque recebo cartas e visitas de espíritas do país inteiro, pedindo instruções e conselhos para tudo, até mesmo para organizações de centros espíritas e modos de praticar mediunidade em sessões mediúnicas, sinal de que, realmente, não entendem o que lêem, não conhecem a doutrina que pretendem praticar. O espírita, em grande parte, não aprendeu, ainda, a viver com a doutrina; vive perguntando a este ou aquele como é isto e aquilo. As ideias pessoais infiltradas na doutrina é o mal que deve ser evitado pelo adepto sincero. É preciso renovação de si próprio e humildade de coração. (...)” (In: CAMILO,P.(Org.).“Pelos caminhos da mediunidade serena”. 3ª.ed. SP: Lachâtre, 2015, p.88-89.)

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