• Júlio Zacarchenco

Cristão, embainha a tua espada!



No dia de celebração de Nossa Senhora Aparecida, ocorrida ontem, 12 de outubro, Sua Excelência, o Presidente da República, ao ser questionado sobre a manifestação do Arcebispo Dom Orlando Brandes - que expressou-se contrariamente ao armamento da população, com base nos ensinos de Jesus-, respondeu que “a Bíblia fala em arma”, citando o versículo 36, do capítulo 22, do Evangelho de Lucas.


Inicialmente, é necessário que se diga que este artigo não tem o intuito de discutir ideologias políticas. O único objetivo visado aqui é o estudo do texto bíblico evocado pelo Senhor Presidente da República, para esclarecimento respeitoso da distorção do sentido da mensagem do Evangelho, por ele praticada.


A passagem bíblica a que ele se referiu é a seguinte:


“Disse-lhes (Jesus), pois: Mas, agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua veste e compre-a.” (Evangelho de Lucas, 22:36).


Nesse trecho da narrativa de Lucas - assim como na maioria das vezes que Jesus expôs a Sua doutrina, revelando a Lei de Deus-, há o uso de alegorias, imagens, de linguagem figurada.

Vejamos alguns outros exemplos do Novo Testamento:


- “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” (João, 8:12)


- “E disse outra vez: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher, tomando-o, escondeu em três medidas de farinha, até que tudo levedou.” (Lucas, 13:20-21)


- “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada.” (Mateus, 15:13)

Ora, sabemos que a linguagem figurada ou sentido figurado consiste em uma ferramenta ou modalidade de comunicação na qual palavras ou expressões adquirem um sentido especial em situações particulares de comunicação, isto é, o seu significado é ampliado ou alterado no contexto em que são empregadas, sugerindo ideias que vão além de seu sentido mais usual, adquirindo um sentido simbólico, só compreensível pela frase onde surge ou pela situação de comunicação. A linguagem figurada opõe-se, portanto, à literalidade e não pode ser compreendida corretamente fora do seu contexto.


Nesse sentido, encontramos uma advertência importantíssima do apóstolo Paulo, em sua segunda carta à Igreja de Corinto, quando diz:


“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, e o espírito vivifica. (2 Coríntios 3:4-6) (grifos nossos)


Conforme esclarecimento de São Paulo, a interpretação literal dos textos do Evangelho corrompe, destrói o seu sentido verdadeiro, sendo necessário ao leitor/intérprete buscar o espírito, isto é, a essência dos ensinamentos do Cristo.

Se já é sabido que não devemos usar a literalidade na interpretação dos escritos bíblicos, como, então, entender o que quis dizer Jesus naquela passagem do Evangelho de São Lucas?


O capítulo vinte e dois do Evangelista narra que, naquele período próximo à Páscoa, os sumos sacerdotes já procuravam matar Jesus, conquanto temessem a reação popular, de modo que, para a concretização de seu plano, conseguiram ludibriar Judas Iscariotes, envolvendo-o numa trama de traição contra o Rabi Nazareno. Ciente de tudo o que se passava e das fragilidades morais de seus discípulos, Jesus aproveitou o momento da ceia pascal para advertir e orientar os seus companheiros. Lembra-os de que o momento de seus padecimentos maiores e morte havia chegado e que era necessário que Ele desse o Seu testemunho; deixa-lhes saber que estava plenamente consciente do que ia no íntimo de cada um deles, como das armações de Judas ou do medo de Pedro, que o levaria às três negações. Na oportunidade, Jesus também ensina que o maior de todos é aquele que coloca-se a serviço de todos. E, por fim, prepara-os para o período de grandes lutas e tribulações que os discípulos teriam de enfrentar após a Sua morte.


Agora, reflitamos sobre o trecho abaixo:


"E disse-lhes (Jesus): Quando vos mandei sem bolsa, alforje ou sandálias, faltou-vos, porventura, alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes, pois: Mas, agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua veste e compre-a”. (Lucas 22:35-36).


Notemos que Jesus primeiramente se refere à ocasião em que orientou os setenta discípulos a saírem, dois a dois, para divulgar a Boa Nova, dizendo-lhes que não levassem nada com eles que fosse desnecessário para a tarefa, pois que a confiança em Deus ser-lhes-ia o sustentáculo para a obra. A conjuntura, antes, não era tão arriscada e perigosa como a que estava por vir. Por isso, sabendo que as dificuldades e tribulações seriam maiores após a sua morte física e que os discípulos teriam de enfrentar um período de cruéis perseguições, orienta-os a se prepararem para as grandes lutas e testemunhos.


Ensina-nos Antônio Luiz Sayão, ao comentar o trecho acima:

“As palavras constantes nestes versículos objetivavam manter os discípulos em guarda contra os acontecimentos que sobreviriam e fazer-lhes compreender que se aproximava o momento da luta. Falando-lhes da necessidade de se proverem de alforje, bolsa e espada, queria compreendessem que iam entrar em ação e que cumpria se armassem para resistirem aos ataques. Entretanto, é claro que tais palavras eram simbólicas. Jesus, que proibiu a Pedro o uso da espada, não podia aconselhar a seus discípulos que se armassem de espadas para combater materialmente. Em ‘espírito’, o que Ele assim lhes dizia era: ‘aproxima-se o momento em que ireis percorrer a Terra. Tomai todas as precauções para que nada vos falte. Sabeis qual o fim da viagem que ides empreender. Fazei provisão de ensinamentos, de moral e de exemplos. Sereis atacados; armai-vos para a defesa. As únicas armas, porém, de que deveis utilizar-vos são o amor e a caridade’. Ditas que foram para o momento e para o futuro, vemos, por essas palavras, que todos os que se esforcem por imitar os discípulos fiéis do Mestre, no apostolado da era nova, são apóstolos todos e se devem armar como os do Cristo.” (Sayão, A.L. Elucidações Evangélicas À Luz da Doutrina Espírita. p.433-434. 16ª ed. Brasília: FEB,2019)

Aliás, é preciso que tenhamos em mente a sequência daquele trecho evangélico, pois que no versículo seguinte Jesus afirma:


“Porque, eu vos declaro ser preciso também que em mim se cumpra isto que está escrito: ‘Ele foi incluído no rol dos celerados’; porquanto, o que de mim foi profetizado está prestes a cumprir-se." (Lucas, 22:37)

Como poderia Jesus orientar os seus discípulos a se armarem fisicamente, com espadas, para ferir e matar, ainda que fosse em defesa própria, se Ele próprio, o Senhor, anunciava naquele momento que tudo o que havia sido profetizado sobre o Messias tinha de ser cumprido, ou seja, que Ele, que era o Messias, estava ciente dos sofrimentos atrozes e da morte cruel que sofreria e aceitava tudo pacificamente?!


Ao referir-se às profecias, Jesus se reportava à Isaías:


“Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades (…). Ele foi oprimido, mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.(…) Pelo que lhe darei a parte de muitos, e, com os poderosos, repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte e foi contado com os transgressores.” (Isaías, 53:5,7,12)


É interessante notar a reação do Mestre quando os discípulos lhe apresentaram duas espadas que estavam no local:

“Eles disseram: ‘Senhor, aqui estão duas espadas’. Respondeu-lhes Jesus: Basta.” (Lucas, 22:38)


Não tendo compreendido, de imediato, o sentido figurado das palavras do Mestre, os apóstolos logo lhe apresentaram as duas espadas de que dispunham. E Jesus, então, lhes disse: “basta”, não no sentido de que as espadas eram suficientes para a luta, até porque apenas duas daquelas não resolveriam o problema de defesa de todo o grupo, mas disse-o como a encerrar ali a conversa, pois, na sequência, saiu do local, indo para o Monte das Oliveiras, para exemplificar com o seu próprio sacrifício o que quis ensinar aos discípulos naquela ceia pascal.


Já na cena da prisão, no Monte das Oliveiras, o evangelista Lucas, no mesmo capítulo vinte e dois, relata que um dos discípulos feriu Malco - que era um servo do sumo sacerdote e ali se encontrava para prender o Senhor-, cortando-lhe a orelha com a espada. Jesus, de imediato e energicamente, diz aos discípulos “Deixai-os; basta!” e, em seguida, curou a orelha do homem. (Lucas 22:50,51).


E sobre o mesmo episódio, o evangelista João registrou a ordem que Jesus deu a Pedro:


“Mas Jesus disse a Pedro: Mete a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” (João, 18:11)


De forma clara e insofismável, Jesus demonstrou que os Seus verdadeiros apóstolos devem, em qualquer época, estar armados para as grandes lutas, mas que as suas armas devem ser o amor, a paciência, a tolerância, a mansuetude, a perseverança, a coragem, a humildade, o perdão e a caridade.


Por isso, na condição de cristãos, nós espíritas fazemos coro à voz de Sua Excelência o Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, para rogar a todos os nossos irmãos brasileiros menos armas, menos ódio, mais amor, mais perdão, mais caridade, mais fraternidade!


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