Buscar
  • Júlio Zacarchenco

A influência moral do médium nas atividades mediúnicas

Atualizado: 10 de Dez de 2018


O desenvolvimento moral do médium interfere em sua mediunidade?

#mediunidade #mediuns #espiritismo #allankardec #moral

A mediunidade é, ainda, muito pouco compreendida pela imensa maioria das pessoas. Muitos a consideram um privilégio ou um dom concedido unicamente a pessoas especiais, espiritualmente superiores. Outros a entendem como algo sobrenatural. Mas, nada disso corresponde à verdade.


Embora o fenômeno mediúnico tenha estado presente desde os primórdios da Humanidade na Terra, foi apenas com o Espiritismo, surgido no século XIX, que pudemos melhor e mais clara e profundamente nos esclarecer sobre o assunto.


Segundo a conceituação espírita, “todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva.” (1)


Desse trecho, depreendemos, facilmente, que mediunidade é uma faculdade natural, inserta dentro das leis da Natureza - nada tendo, portanto, de sobrenatural -, e que está presente em todos os seres humanos, de maneira mais ou menos ostensiva. Em todos os casos, sua manifestação ocorre por meio de mecanismos do corpo físico.


Outra conclusão a que chegamos é que, sendo uma faculdade inerente ao ser humano, está presente em bons e maus, eruditos e ignorantes, ricos e pobres, em pessoas de todas as etnias, culturas, nações, religiões.


Conscientes disso, é preciso considerarmos até que ponto as qualidades morais do médium interferem em sua atividade mediúnica, para que evitemos ser vítimas de fraudes, embustes, maus procedimentos ou crimes.


A Doutrina Espírita também esclarece essa dúvida. Allan Kardec dedicou um capítulo inteiro, na obra “O Livro dos Médiuns”, para tratar da questão.


O codificador do Espiritismo questionou os Espíritos superiores sobre se o desenvolvimento da mediunidade guardaria relação com o desenvolvimento moral dos médiuns. Eis a resposta:


“Não; a faculdade propriamente dita se radica no organismo; independe do moral. O mesmo, porém, não se dá com o seu uso, que pode ser bom, ou mau, conforme as qualidades do médium.” (2)


Isso esclarece uma dúvida comum que as pessoas têm a respeito da faculdade mediúnica, já que muitos acreditam que ela apenas estaria presente nos indivíduos bons, moralizados, caridosos, humildes.


Kardec quis, então, saber a razão por que existem pessoas indignas com mediunidades em seu mais alto grau de manifestação e que delas usam mal. Elucidando a dúvida, responderam os Espíritos:


“Todas as faculdades são favores pelos quais deve a criatura render graças a Deus, pois que homens há privados delas. Poderias igualmente perguntar por que concede Deus vista magnífica a malfeitores, destreza a gatunos, eloquência aos que dela se servem para dizer coisas nocivas. O mesmo se dá com a mediunidade. Se há pessoas indignas que a possuem, é que disso precisam mais do que as outras, para se melhorarem. Pensas que Deus recusa meios de salvação aos culpados? Ao contrário, multiplica-os no caminho que eles percorrem; põe-nos nas mãos deles. Cabe-lhes aproveitá-los. Judas, o traidor, não fez milagres e não curou doentes, como apóstolo? Deus permitiu que ele tivesse esse dom, para mais odiosa tornar aos seus próprios olhos a traição que praticou.” (3)


Na sequência das perguntas feitas por Kardec, os Espíritos superiores esclareceram, também, que:


- os médiuns que fazem mau uso de sua mediunidade, que não a aproveitam para se instruírem, para se melhorarem moralmente, serão punidos duplamente, porque têm um meio a mais de se esclarecerem e o não aproveitam, afirmando os benfeitores que “aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do que o cego que cai no fosso”. As punições a que se referem os Espíritos são as consequências naturais de seus equívocos;


- os Espíritos superiores procuram sempre influenciar os médiuns para o bem; mas, quando essas pessoas consentem em ser arrastadas para mau caminho, eles as deixam ir. Nesses casos em que os Bons Espíritos se afastam, outros, inferiores, lhes tomam o lugar nas manifestações. (grifos nossos)


Com base nos ensinamentos dos benfeitores espirituais, Kardec concluiu que “ se o médium, do ponto de vista da execução, não passa de um instrumento, exerce, todavia, influência muito grande, sob o aspecto moral. Pois que, para se comunicar, o Espírito desencarnado se identifica com o Espírito do médium, esta identificação não se pode verificar, senão havendo, entre um e outro, simpatia e, se assim é lícito dizer-se, afinidade. A alma exerce sobre o Espírito livre uma espécie de atração, ou de repulsão, conforme o grau da semelhança existente entre eles. Ora, os bons têm afinidade com os bons e os maus com os maus, donde se segue que as qualidades morais do médium exercem influência capital sobre a natureza dos Espíritos que por ele se comunicam. Se o médium é vicioso, em torno dele se vêm grupar os Espíritos inferiores, sempre prontos a tomar o lugar aos bons Espíritos evocados. As qualidades que, de preferência, atraem os bons Espíritos são: a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor do próximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade e todas as paixões que escravizam o homem à matéria.” (4)


E Kardec prossegue em suas conclusões:


“Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas ao acesso dos maus Espíritos. A que, porém, eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos médiuns dotados das mais belas faculdades e que, se não fora essa imperfeição, teriam podido tornar-se instrumentos notáveis e muito úteis, ao passo que, presas de Espíritos mentirosos, suas faculdades, depois de se haverem pervertido, aniquilaram-se e mais de um se viu humilhado por amaríssimas decepções. O orgulho, nos médiuns, traduz-se por sinais inequívocos, a cujo respeito tanto mais necessário é se insista, quanto constitui uma das causas mais fortes de suspeição, no tocante à veracidade de suas comunicações. Começa por uma confiança cega nessas mesmas comunicações e na infalibilidade do Espírito que lhas dá. Daí um certo desdém por tudo o que não venha deles: é que julgam ter o privilégio da verdade. O prestígio dos grandes nomes, com que se adornam os Espíritos tidos por seus protetores, os deslumbra e, como neles o amor-próprio sofreria, se houvessem de confessar que são ludibriados, repelem todo e qualquer conselho; evitam-nos mesmo, afastando-se de seus amigos e de quem quer que lhes possa abrir os olhos. Se condescendem em escutá-los, nenhum apreço lhes dão às opiniões, porquanto duvidar do Espírito que os assiste fora quase uma profanação. Aborrecem-se com a menor contradita, com uma simples observação crítica e vão às vezes ao o ponto de tomar ódio às próprias pessoas que lhes têm prestado serviço. Por favorecerem a esse insulamento a que os arrastam os Espíritos que não querem contraditores, esses mesmos Espíritos se comprazem em lhes conservar as ilusões, para o que os fazem considerar coisas sublimes as mais polpudas absurdidades. Assim, confiança absoluta na superioridade do que obtém, desprezo pelo que deles não venha, irrefletida importância dada aos grandes nomes, recusa de todo conselho, suspeição sobre qualquer crítica, afastamento dos que podem emitir opiniões desinteressadas, crédito em suas aptidões, apesar de inexperientes: tais as características dos médiuns orgulhosos. Devemos também convir em que, muitas vezes, o orgulho é despertado no médium pelos que o cercam. Se ele tem faculdades um pouco transcendentes, é procurado e gabado e entra a julgar-se indispensável. Logo toma ares de importância e desdém, quando presta a alguém o seu concurso.” (5)


Como parte de seus estudos sobre mediunidade, Kardec nos oferece um quadro bastante interessante de classificação dos médiuns. Dentre os classificados como imperfeitos, destacamos alguns tipos: (6)


- médiuns fascinados: os que são iludidos por Espíritos enganadores e se iludem sobre a natureza das comunicações que recebem;


- médiuns presunçosos: os que têm a pretensão de se acharem em relação somente com Espíritos superiores. Creem-se infalíveis e consideram inferior e errôneo tudo o que deles não provenha;


- médiuns orgulhosos: os que se envaidecem das comunicações que lhes são dadas; julgam que nada mais têm que aprender no Espiritismo e não tomam para si as lições que recebem frequentemente dos Espíritos;


- médiuns mercenários: os que exploram suas faculdades.


Com base nos ensinamentos de Jesus, o Espiritismo condena qualquer tipo de mercantilismo com a mediunidade, considerando tal prática simonia (compra e venda das coisas sagradas, o que contraria a Lei Divina).


Algumas vezes, essa prática é bastante explícita, mas há muitos casos em que ela se apresenta de maneira sutil, disfarçada, mas, nem por isso deixa de ser um desvio do uso da mediunidade, com sérias consequências para os que a praticam. Qualquer um que use a mediunidade como trampolim para a fama, ou para o seu enriquecimento direto ou indireto, como forma de trocar favores, para a conquista de privilégios materiais, comete simonia.

O próprio Cristo advertiu os seus discípulos sobre a questão “Curai enfermos, erguei mortos, purificai leprosos, expulsai daimones (Espíritos); de graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8) (7)


E, em outra passagem do Novo Testamento, encontramos a cena de Jesus com os vendilhões do templo: “Dirigem-se a Jerusalém. Entrando no templo, começou (Jesus) a expulsar os que vendiam e os que compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. E não permitia que ninguém transportasse utensílio através do templo. Ensinava e dizia a eles: Não está escrito que: ‘A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações?’. Mas vós fizestes dela um covil de assaltantes. (Marcos, 11:15 a 17) (8)

Kardec, analisando esses ensinamentos de Jesus, escreveu: “ ‘Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido’, diz Jesus a seus discípulos. Com essa recomendação, prescreve que ninguém se faça pagar daquilo por que nada pagou. Ora, o que eles haviam recebido gratuitamente era a faculdade de curar os doentes e de expulsar os demônios, isto é, os maus Espíritos. Esse dom Deus lhes dera gratuitamente, para alívio dos que sofrem e como meio de propagação da fé; Jesus, pois, recomendava-lhes que não fizessem dele objeto de comércio, nem de especulação, nem meio de vida. (...) Jesus expulsou do templo os mercadores. Condenou assim o tráfico das coisas santas sob qualquer forma. Deus não vende a sua bênção, nem o seu perdão, nem a entrada no Reino dos Céus. Não tem, pois, o homem, o direito de lhes estipular preço.” (9)


Segundo o codificador, “a primeira condição para se granjear a benevolência dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação, o mais absoluto desinteresse moral e material. (...) A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora. O médico dá o fruto de seus estudos, feitos, muita vez, à custa de sacrifícios penosos. O magnetizador dá o seu próprio fluido, por vezes até a sua saúde. Podem por-lhes preço. O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos; não tem o direito de vendê-lo. Jesus e os apóstolos, ainda que pobres, nada cobravam pelas curas que operavam. Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por onde subam.” (10)


Assim, com o conhecimento que o Espiritismo nos oferece, fazendo bastante luz para que vejamos mais claramente o que seja relacionado à mediunidade, resta aos que sejam médiuns, tomar as devidas precauções no trato com a sua faculdade, aperfeiçoando o seu caráter moral e exercendo-a com o mais absoluto desinteresse pessoal e material, e aos que busquem os médiuns, verificar se eles são bons médiuns, conforme a classificação espírita, e evitar recorrer às suas faculdades para fins puramente materiais e egoísticos, assim como evitar oferecer-lhes elogios e bajulações, que são totalmente dispensáveis e podem mesmo os levar à derrocada.


BIBLIOGRAFIA:


1. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 159.

2. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 226.

3. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 226.

4. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 227.

5. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 228.

6. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. item 196.

7. Novo Testamento. Tradutor Haroldo Dutra Dias. 1.ed. Brasília (DF): CEI, 2010. p.71.

8. Novo Testamento. Tradutor Haroldo Dutra Dias. 1.ed. Brasília (DF): CEI, 2010. p.215.

9. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XXVI.itens 1,2,5,6.

10. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 130. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.cap.XXVI.itens 8,10.



139 visualizações

© 2020 por Fraternidade Espírita do Grande Coração